No cruzamento da Paulista com a Augusta eles não param nunca; atravessam no vermelho mesmo; olha lá o ciclista na contramão; por que é tão difícil atravessar dentro da faixa de pedestres; por que insistem em atravessar longe da faixa; fora da passarela é pedir pra ser atropelado; ciclista aparece “do nada”; a gente leva até um susto no volante; tem pedestre que é muito folgado; caminhando e olhando pro alto e falando no celular; vai pedalar na ciclovia; seu lugar não é na rua; saindo da garagem levo até um susto com os pedestres na calçada; ciclista não obedece nenhuma lei de trânsito!

Que as ideias voltem a ser perigosas

Por trás de desobediências civis há, muitas vezes, processos revolucionários em curso. Por isto, aos caminhantes, bicicleteiros, usuários da sola do sapato e das duas rodas com pedais:

Obrigado por serem destemidos e erráticos. Com vocês o trânsito da cidade é mais humano e respeitoso, pois a qualquer instante uma pessoa que está atrás do volante poderá ser surpreendida por outra atravessando a rua, ou pedalando entre os carros, o que demanda uma atenção redobrada ao volante.

Obrigado por não esperar 3 ou 4 insanos minutos para fazer a travessia de uma avenida, bizarramente condicionada a dar mais tempo e fluidez às máquinas do que às pessoas.

Obrigado aos ciclistas por seguirem pela contra mão ao invés de aumentar seu caminho em centenas de metros por conta da convenção motorizada das ruas de fluxo unidirecional.

Nossos agradecimentos também aos que desbravam novas rotas pedalando na calçada de grandes avenidas ou onde o trânsito motorizado é muito opressivo. São vocês que irão reorientar a dinâmica do espaço viário em favor dos fluxos humanos.

 

Comportamento subversivo

O estrangulamento do trânsito, os semáforos, os cruzamentos, as mudanças de mão das ruas, são todas questões que induzem ciclistas e pedestres a adotarem um comportamento subversivo, uma vez que este cenário não tem relação nenhuma com as necessidades de quem vai em bicicleta e a pé. Foram desenhadas para máquinas, não foram pensadas e executadas considerando as dinâmicas dos modos ativos de deslocamento.

“Faça e eles virão”. Construa boas ciclovias e terá mais ciclistas. Construa bons calçadões e terá mais pessoas caminhando. “Inclua e eles seguirão”. Infraestrutura bem feita – e que dialoga corretamente com a cultura para a qual foi planejada – promove inclusão e induz ao correto e natural uso destas estruturas. Uma cidade que inclui e pensa na cultura de quem se desloca com a própria energia é uma cidade boa para todos.

Em casos de colisões e atropelamento, é aceitável que a parte mais forte, ou seja, os condutores de veículos motorizados, alegue que foi surpreendida pelo comportamento da vítima? É prerrogativa de quem potencialmente pode matar fazer de TUDO para evitar que nenhuma colisão ou atropelamento ocorra, independente do quão “errada” ou desobediente a parte mais fraca seja.

Um policial armado, por exemplo. Sua prerrogativa elementar é que ele utilize sua arma de fogo somente, tão somente, em casos extremos de vida ou morte, não?

Por que, na (des)ordem do trânsito, adotamos uma postura perdulária e complacente com as mortes e com as vítimas deste trânsito? Como se elas representassem meros efeitos colaterais de algo que “sempre foi assim” ou da desigualdade, representada especialmente pela correlação de forças entre os modos de transporte, que decididamente se apresenta como mais um gravíssimo sintoma da nossa incapacidade de promover justiça, igualdade e inclusão.

Há um certo regozijo por parte de motoristas quando um ciclista desobedece uma regra de trânsito. É como se testemunhar tal feito representasse um salvo-conduto para todas as mazelas da sociedade do automóvel – do alto número de mortos à insustentável poluição do ar. Um comportamento decerto abominável e mesquinho, mas muito presente.

Se adotássemos a postura de zelar, cuidar e preservar, em qualquer situação e a qualquer custo, quem opta por caminhar, pedalar, andar de skate e patins, certamente não aceitaríamos aberrações como a resposta oficial da OAB-SP (no caso da redução dos limites de velocidade das Marginais), que textualmente culpabiliza as vítimas pela suas próprias mortes. Desconstruindo, inclusive, a lógica de hierarquia entre os meios de transporte corretamente estabelecida pelo nosso Código de Trânsito Brasileiro (artigo 29, § 2º).

 

CASOS CONCRETOS ou PRECISA QUE DESENHE?

Em 2010, quando a Avenida Paulista era estruturada quase exclusivamente para transportar cargas e pessoas (que também são cargas, segundo a visão utilitarista de “transporte”), os ciclistas que por ali circulavam adotavam uma postura subversiva de pura sobrevivência. Ou seja, o desafio era como acessar a avenida pela região do Paraíso e chegar vivo e seguro na outra ponta, perto da Rua da Consolação.

Isto significava, por exemplo, usar a calçada às vezes, pegar contramão, passar o semáforo vermelho – semáforo, este, implementado de acordo com as necessidades e urgências de um meio de transporte apenas: o individual motorizado.

bicicletas na contramão
Contagens de ciclistas realizadas pela Ciclocidade – Associação dos ciclistas urbanos de São Paulo

Vejam só: em 2010, 20% de quem passava de bicicleta pela Avenida Paulista estava na contramão. Em 2015, após a implantação de uma importante ciclovia na Avenida Paulista, o índice de ciclistas na contramão caiu para 1%. Isso mesmo: 1%.

 

Novos ciclistas e usuários do sistema Bike Sampa

Segundo pesquisa realizada no ano passado com usuários do sistema Bike Sampa de compartilhamento de bicicletas, 71% dos entrevistados disseram que usam a calçada em parte dos seus deslocamentos. São em geral novos usuários que enxergam no trânsito motorizado um risco, ou que simplesmente buscam o caminho mais curto para chegarem aos seus destinos, comportamento comum a tudo e todos, seja água ou seres humanos.

De acordo com a pesquisa sobre o perfil de quem usa bicicleta em São Paulo, lançada pela Associação dos ciclistas urbanos de São Paulo (Ciclocidade) no último mês, 45% dos entrevistados afirmaram raramente ou nunca pedalar em calçadas; enquanto 32% disseram que às vezes as usam, 13% quase sempre e 10% disseram sempre usar calçadas em seus deslocamentos.

A utilização das calçadas, por parte de ciclistas, especialmente de quem está começando a vivenciar a bicicleta pelas ruas da cidade, é muito mais um sintoma da violência e do desrespeito ainda presentes em nossas vias públicas do que um indicativo de existência de um coletivo de infratores e atropeladores de velhinhas nas calçadas.

Cabe ainda ressaltar que pesquisas apontam que o desrespeito médio de motoristas e ciclistas à legislação de trânsito são equivalentes – ainda que as consequências dos automobilistas que desrespeitam regras feitas para quem está de carro sejam em geral arcadas por quem está do lado de fora.

 

Os jaywalkers, caminhantes irresponsáveis

Obey!
OBEDEÇA – uma campanha da Associação Norte Americana do Automóvel

Um termo bastante comum em países de língua inglesa que apelida os “pedestres destemidos” de jaywalkers (Jão caminhante, em tradução livre). Gíria que surgiu no começo do século XX e que, através de diversas campanhas publicitárias e lobby por parte da indústria automobilística, passou a estigmatizar pedestres que não respeitavam as regras de trânsito.

A convenção social antes da popularização dos motores nas cidades estabelecia que a responsabilidade sobre a segurança das pessoas que transitavam nas ruas e calçadas era dos condutores de veículos. Naturalmente isso atrapalhava a fluidez motorizada e trazia um grave problema para popularizar o “produto” automóvel aos olhos de potenciais compradores.

De maneira articulada e através de pesados investimentos, a “motorcracia” (grupos lobistas em prol da indústria automobilística) definiu um novo senso comum, um que define que “as ruas são para os carros”. Legislação que pune pedestres imprudentes ainda seguem válidas em todo os Estados Unidos e diversos outros países.

Um estudo conduzido na cidade de Seattle apontou que maioria dos pedestres vítimas de atropelamento são idosos, crianças e adultos bêbados, ou seja, os mais vulneráveis. Os “jão caminhantes” são justamente adultos aptos, ágeis e que exercem de maneira consciente um julgamento em relação a própria segurança ao atravessar uma rua. Dadas as suas habilidades e capacidades físicas, são justamente os menos propensos à sofrer as consequências do erro de julgamento ou do excesso de velocidade de condutores de automóveis.

 

Concluindo…

Infelizmente, as autoridades de trânsito consideram que o “justo” é educar também pedestres e ciclistas para que respeitem regras construídas e reforçadas para promover a segurança e fluidez de pessoas que escolheram conduzir velozes e perigosas máquinas que são hoje mais mortais do que o terrorismo, que matam mais crianças do que qualquer outra outra causa isolada e que, mesmo assim, gozam de privilégios indecentes.

É preciso entender que por trás de cada pedestre e ciclista destemido existe uma linha de desejo e uma necessidade de mobilidade ainda não atendida. Por isso nosso muito obrigado aos que ousam promover cidades mais humanas em que as leis, a lógica e a ética esteja em favor do bem estar e da proteção à vida.

 

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Daniel Guth é diretor de Participação da Associação de ciclistas urbanos de São Paulo e líder da Rede Bicicleta para Todos. Autor do blog sobre mobilidade urbana e bicicletas: A Bicicleta na Cidade.

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