O slogan da Brasil Ride – “mais do que uma competição, uma etapa em sua vida” – vai além de uma frase de efeito, trás uma grande verdade que revela a intensidade e o valor desta competição. A mera descrição dos processos físicos e psicológicos que acontecem com os atletas que participam desta prova, somados aos adjetivos de superação, companheirismo e adaptação, nem de longe se aproximam da experiência e da grandeza desta vivência. Portanto, devido as limitações da linguagem, o relato a seguir descreve apenas uma aventura transformadora e o início de uma etapa de preparação para uma aventura ainda maior.

Quando saí de Brasília rumo à Mucugê, eu procurava conhecer o território da Chapada Diamantina e da competição, a fim de me preparar para a próxima etapa da ultramaratona e fazer um breve reconhecimento para uma expedição que dará a volta ao parque nacional em 2015.

No entanto, ao escolher viajar de carro, atravessei o sertão da Bahia, visitei vilarejos e povoados, locais onde as pessoas parecem viver em um outro tempo, em um cenário de seca extrema, cactos gigantes, relevos e paisagens que parecem de outro país. Este foi o início da aventura, mudei a rota da viagem para atravessar estradas vicinais e ter contato com essa realidade tão distante dos olhos de quem vivem em uma metrópole. Atravessar inúmeras pontes onde os rios estão completamente secos, percorrer estradas onde a terra virou areia, e ver muitas casas abandonadas ao longo do caminho, deu uma sensação de apocalipse, algo como Mad Max III em uma luta pela água. Depois de quilômetros percorridos em um cenário desolador, a serra da Chapada Diamantina parecia ainda mais assustadora, com aqueles morros e precipícios de pura rocha perdidos no meio da imensidão.

Então, no meio do sertão que parece não ter fim, surge Mucugê, uma espécie de oásis, a bela cidade dá as boas vindas na entrada do parque nacional, com suas casas coloridas, ruas de pedra e o aconchego que guardam nossas cidades históricas.

No dia seguinte, parto para o treino de adaptação. Como qualquer ciclista, no lugar de acompanhar um grupo que estava saindo para fazer o reconhecimento do percurso do XCM, resolvo forçar o ritmo pra fazer pressão psicológica nos adversários e já deixá-los afetados para a prova. Afinal, já seria uma dúzia a menos de competidores e eu completando não ficaria em último lugar ;)

A atitude impulsiva me levou a sair do percurso do XCM, e fui no sentido de Rio de Contas, etapa mais difícil do Brasil Ride onde houve o maior número de desistências e fair play, pedalei por estradões de areia onde a roda afundava mais de 15cm, não sabia se continuava pedalando sem sair do lugar ou se empurrava, olhava no horizonte e só via estrada de areia. Quando não era areia, a trilhas eram de pura pedra, mas não entenda pedra como cascalho, pense em pedras grandes, pontudas, soltas, vulcânicas, enormes. Os rock gardens com degraus imensos, do tamanho de um carro, sério não é exagero, é assustador pensar que vc terá que descer aquilo sem freio. Como a luz do dia estava acabando, não fiz o percurso inteiro e controlei a distância para voltar no final do dia à Mucugê.

Durante a minha escapada no treino, passei por uma dupla de atletas em sentido contrário na ida e na volta, eles estavam em um ritmo muito acelerado e mais tarde os reconheci na cidade. Conversei com eles, me explicaram o circuito do XCM e marcamos um treino no dia seguinte.

Não sei se foram os meus 10 minutos de atraso, ou se foi o treino dos caras que estava muito puxado e não conseguiram acordar, mas não encontrei com os estricnados no local combinado, e resolvi seguir as instruções e fazer o reconhecimento sozinho. Este percurso foi incrível, passei por povoados contornando um platô gigantesco em torno da região de Mucugê, depois dos estradões começaram a seguência de singles, sempre naquela situação de afundar na areia ou deslizar nas rochas, a paisagem surpreende pela beleza, realmente deslumbrante, para minha sorte a umidade estava aumentando devido as nuvens carregadas abaixo do topo da montanha. Sim, vc pedala rumo às nuvens, sabendo que ainda tem mais subida depois delas.

Quase no final do percurso havia uma placa com uma seta “Brasil Ride Finish”, imaginei que era o final do percurso e voltei para Mucugê, faltaram 12km para que eu fizesse o reconhecimento completo. Parece pouco, mas no Brasil Ride são estes pequenos percursos de 10, 12, 15km, que guardam grandes surpresas e sofrimentos.

Já em Mucugê, conheci os atletas de uma equipe de Barbacena, MG. Um bando de brutos sem fingimento, veteranos do Brasil Ride, campeões de competições como Big Biker, Warm-Up, Iron Biker e outras brutalidades. O contato com eles foi fundamental para entender aspectos de intensidade e logística da prova, pude aprender sobre detalhes que um competidor de primeira viagem jamais imaginaria, e então compreender o tamanho e o verdadeiro grau de dificuldade desta competição. Me ajudou a refletir sobre modos específicos de treinamento, equipamento e permanência na prova. Tive muita sorte em encontrá-los e fazer grandes amizades.

No mesmo dia, também conheci Gary Fisher no lounge da Trek, conversei um pouco com o lendário designer de bicicletas, e no dia seguinte tive a oportunidade de pedalar com ele. Acompanhei a lenda vida do mountain bike, que compete desde 1963, em uma trilha técnica no entorno de Mucugê, e fiquei sonhando em conseguir pedalar com aquele vigor daqui alguns anos.

No sábado foi a largada do XCM, como toda prova de mountain bike, o pessoal sai doido, parece um estouro de boiada. Apesar de largar na ponta, bem na roda do Leandro Cavalo, fui empurrado por atletas da federação RS e perdi a roda do LeLê, não conseguindo acompanhá-lo e nem o primeiro pelotão, minhas pernas pareciam empedradas, o preço por ter feito treinos tão intensos nos dias anteriores. Ainda no asfalto, encontrei Gary Fisher, chamei para que nos acompanhasse, oferecendo a roda, mas só pedalamos um pouco porque o segundo pelotão já estava distanciando, e minhas pernas pegando fogo. Então veio o pelotão de Alagoas, infiltrei no grupo e segui com eles no trecho de estradão até o início dos primeiros singles, quando as pernas começaram a soltar e fui recuperar as posições. Mas, já era tarde, trilha estreita, muita gente empurrando bike e atrapalhando as ultrapassagens, dai o ritmo ficou travado, mais a frente encontro uma atleta que caiu e ficou presa em uma erosão, a garota estava encaixada em um buraco com a bike por cima, todo mundo passava direto. Resolvi ajudá-la, tirei a bike, carreguei a garota pra fora, perguntei se estava bem, e ela respondeu que estava muito mal porém queria continuar. Falei para ela ir pedalando na minha frente, até encontrarmos um apoio, cambaleante e guerreira, ela seguiu pedalando entre pedras e afundando nos singles de areia por alguns quilômetros, até que avistei uma ambulância de apoio, certifiquei que ela conseguiria chegar até o socorro, e novamente parti pro ataque. Fiz uma estratégia ousada de não parar nos pontos de apoio, ganhei tempo com isso, mas muito desgaste também.

Na transição do asfalto para o último trecho da competição, meu tempo estava bom, ganhando posições, mas as forças já estavam acabando. Eis que vem a parte final, mais técnica e difícil da competição, exatamente a que não fiz o reconhecimento, onde a areia é mais fofa e funda, onde as pedras para escalar e descer são mais soltas e maiores, onde as subidas são mais ingrimes no final. Este foi o meu momento de superação, fazer a parte mais técnica próximo a um estágio de exaustão do corpo, quando a cabeça começou a surtar e o sofrimento parecia não ter fim, fiquei lento e perdi posições, não sabia o quanto deveria guardar de perna para conseguir completar a prova, até que no topo da montanha avistei Mucugê e consegui ouvir o locutor Maquininha com seus dizeres: “dói, dói, dói tudo nessa hora”. Então, comecei a colocar pressão nos competidores que estavam na minha frente, grintando pra soltarem o freio nas descida do rock garden, eu gritava que aquilo ali era competição e já estava terminando. Com isso, os caras foram abrindo pra eu passar, o problema era soltar o freio naqueles pedregulhos, com tantos repórteres, adversários deslocados cobrando a minha atitude, o jeito foi soltar o freio, não me pergunte como eu consegui descer aquilo em uma bike de cross country, mas a cada degrau de pedra eu avançava um metro rumo a linha de chegada e ficava mais rápido, eis que chego à igrejinha e o início das ruas de pedra. O público de Mucugê foi incentivando a cada rampa até que cruzei a linha de chegada.

A sensação de completar a prova foi incrível, indescritível como toda a vibe da competição, o aprendizado e toda a vivência. Para quem saiu de Brasília com o foco na difícil missão de completar a prova, a realização foi além das expectativas para uma competição com mais de 500 participantes na modalidade e mais de 1200 no total, meu tempo geral ficou entre os 50 do XCM e entre os 15 da minha categoria. Consegui acompanhar atletas profissionais do Brasil e de outros países. Tirando a suspensão que estourou, o restante da bike ficou inteira. No dia seguinte, ainda encarei um trekking com o guia e campeão de corrida de aventura, Felipe Peum. Durante a trilha constatei o grau de dificuldade do percurso onde havia passado de bike. Mas o mais importante, foi fazer muitas novas amizades e experiênciar de forma tão intensa a Chapada Diamantina e alguns dos segredos da Brasil Ride.

Dedicado ao campeão Ronaldo Tora, quem me apresentou esta competição e por mapear estes caminhos improváveis; Aos povos da chapada; Aos amantes do trekking – Felipe, Vivis e Melina; Aos campeões da Equipe Go-On de Barbacena/MG – DidiCão, Leandro Cavalo e Marcelão; A Gary Fisher, lenda viva do Mountain Bike; Ao motivador Brou Bruto; As garotas super poderosas da Flower People Team que mostraram força e alegria a cada etapa superada; E a todos atletas que encararam este grande desafio. Agradeço ao apoio de todos os parceiros e patrocinadores da Tripedal.net

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