Paris-Brest-Paris 2015 (PBP) – Audax 1200km – Prova

Paris-Brest-Paris - Prova

Darley chegou em Paris 4 dias antes da largada trazendo a Tandem. Utilizamos os dias anteriores a largada para fazer os ajustes finais na bike e comprar pequenos itens necessários para a prova. Nosso bike check-in estava marcado para 14h da véspera da largada, foi quando começamos a perceber a dimensão da prova. Conhecemos pessoas de várias nacionalidades e encontramos alguns brasileiros. Ficamos impressionados com a variedade de bicicletas, a diversidade de estilos dos participantes e a hospitalidade dos voluntários da organização.

Brazucas Após o bike check-in fomos procurar o hotel onde deixaríamos as mochilas para o bag-drop até Loudéac e um local para almoçar. Foi quando conhecemos 3 cariocas: Márcio, Leonor e Maguila. Logo nos identificamos, Márcio e Leonor largariam no mesmo horário que a gente, pois estavam em bicicletas reclináveis (F – Bicicletas especiais).

No dia da largada saímos do hotel 15h e almoçamos próximo ao velódromo, novamente encontramos os cariocas, que já estavam de saída, almoçamos e seguimos. Foi um momento incrível quando chegamos no local da largada, ver a quantidade de ciclistas em bicicletas especiais nos deixou felizes por estar na Tandem e ver tudo mais de perto. Tirei muitas fotos, e logo encontramos nossa posição para a largada.

Quando estávamos próximo ao pórtico de largada ouvimos o meu nome e um comentário de que o Brasil não era mais só o país do futebol, os locutores estavam comentando sobre a categoria especial e os brasileiros. Nos sentimos bastante honrados, fomos os primeiros brasileiros a participar da prova em uma Tandem.

Largada Largamos muito animados e felizes por estar ali, tínhamos a certeza de ter feito a coisa certa quando decidimos participar na Tandem. Apesar de termos feito treinos com ênfase em altimetria, não conseguimos reproduzir nos treinos a dificuldade que encontramos na prova. Além disso, tanto eu quanto Darley somos Randonneurs “novos” fechamos nossa primeira série Audax em 2015, Darley está mais acostumado com o MTB e eu com o Triathlon, e para dar mais emoção, os dois juntos em uma Tandem.

Seguíamos firmes, pedalando com uma média boa para fechar a prova dentro do tempo limite. O primeiro posto de controle era longe, somente no KM 220. Nossa primeira parada foi com 140km, comemos rápido e saímos. Pedalávamos com uma média suficiente para fechar a prova e conseguir dormir em Loudéac (KM 448), onde estavam nossas mochilas e tínhamos reserva de hotel. O Márcio, nosso amigo carioca, pedalava em um ritmo parecido com o nosso. Nos encontrávamos sempre nos percursos entre os PC’s, compartilhávamos as angustias e traçávamos estratégias.

A partir do Km 300 eu passei a sentir um incômodo forte para pedalar, imaginei que era alguma assadura, mas fiquei firme para chegarmos logo em Loudéac, lá eu daria uma olhada e passaria algo para aliviar a dor. Apesar da minha vontade, não conseguia colocar muita força no pedal por conta do incômodo. Me arrastei até Loudéac. Chegando lá, carimbamos o passaporte pegamos a mochila e seguimos para o hotel. Lá descobri que se tratava de uma bolha de sangue. Darley ficou preocupado, mas tranquilizei logo, “vamos fechar sangrando!”.

Após 1h30 de sono rápido em Loudéac, seguimos para Brest, Km 614. Eu tentava me adaptar a dor da bolha, e pedalava em pé para aliviar. Na maior parte das vezes Darley me ajudava e também pedalava em pé. A vantagem é que ganhávamos muita velocidade com os dois pedalando em pé, e eu animava e esquecia um pouco a dor.

O percurso para chegar em Brest possui um trecho longo de subida contínua, cerca de 25km. A pressão no banco aumenta consideravelmente em subidas, cheguei com muita dor em Brest e procurei o posto medico. Consegui uma espécie de band-aid especial para a bolha e seguimos.

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O longo trecho de subidas, a falta de sono e os quilômetros já percorridos nos desgastaram. A pausa mais longa em Brest nos atrasou um pouco, mas conseguimos recuperar o tempo e abrir margem para dormirmos novamente em Loudéac, agora com cerca de 800km percorridos.

Faltando 5km para chegar em Loudéac a corrente do lado esquerdo arrebentou, provavelmente por conta das pedaladas em pé, apesar de ser uma corrente nova e reforçada da Shimano, que foi colocada somente para a prova.

Já que estávamos próximos, resolvemos empurrar até o apoio, após 1km percebemos que era muito longe e estávamos perdendo tempo empurrando. Então, Darley resolveu arrumar para podermos seguir, mesmo assim passamos pelo mecânico da prova ao chegar no PC. Perdemos todo o tempo economizado, mas decidimos dormir para poder seguir, não adiantaria seguirmos quase exauridos. Recuperaríamos o tempo nos trechos seguintes.

paris-brest-paris_julia6 Dormimos 1h, acordamos e partimos rumo a Titéniac km 865. Estávamos 3h atrasados, e chegando lá já havíamos recuperado 2h. A bolha me incomodava bastante, mas a vontade de fechar a prova me mantinha firme, o problema era não conseguir pedalar com 100% das minhas forças, sobrecarregando o Darley. Encontramos com o Márcio e comentei que tínhamos 24h para completar o percurso, para ele seguir sem esperar pela gente, poderia arriscar a prova dele.

Ainda no PC, o Eduardo, gaúcho que conhecemos alguns PC’s antes, contou que havia abandonado a prova e perguntou se precisávamos de algo. Ele nos deu a manta térmica dele, um creme para assaduras, isotônico em cápsulas, fita isolante e fez o pedido para terminarmos por ele. Descansamos um pouco, comemos e saímos rumo a Villaines, km 1009.

A ideia era fechar o percurso diminuindo ainda mais o atraso. Entretanto, o trecho foi bastante difícil, subidas longas e contínuas, a bolha passou a me incomodar de uma forma insuportável, e parávamos a cada 5km para eu aliviar um pouco. Não pedalávamos mais em pé pois não existia margem para um novo remendo na corrente.

Não recuperamos o tempo perdido em Loudéac e nos atrasamos mais, chegamos lá 22h45. Fiquei com o psicológico totalmente abalado e uma dor insuportável. Darley sentia os efeitos da falta de sono e a sobrecarga de segurar o peso da Tandem. Eu queria seguir sem dormir para não esfriar e doer mais e o Darley achava melhor pela nossa segurança cochilarmos um pouco antes, e passar um pouco do início da madrugada diminuindo o risco de hipotermia, além disso estávamos com pouca carga nas baterias das lanternas e carregadores externos.

No posto médico, fizemos massagem para destravar, Darley estava sentindo o trapézio e com alguns dedos dormentes, eu aproveitei para ser atendida também. Após, ficamos cerca de 1h neste PC, analisamos a média necessária para fecharmos no tempo previsto e o frio que enfrentaríamos, já que sairíamos na madrugada para conseguir fechar.

Convenci o Darley a ficar lá e interrompemos a prova. Darley queria fechar a quilometragem mesmo fora do tempo previsto, mas eu estava tão fragilizada que não tinha forças para suportar a dor e ainda não fechar no tempo mínimo.

Voltamos no dia seguinte em um ônibus da organização. Eu me sentia muito fracassada, não tinha dores musculares e mesmo assim não voltei pedalando. Darley antes de entrarmos no ônibus queria voltar pedalando para fechar o percurso, mas fiquei com medo de nos perdermos (fiquei preocupada de terem removido a sinalização e o Garmin não tinha carregado) e em consequência perder o voo de volta para Brasília e as mochilas que estavam no Bag Drop.

A experiência foi maravilhosa. Ver famílias inteiras nos aplaudindo nas cidades por onde passávamos, mesas com bolos, pães, doces, café, refrigerantes e água para os participantes preparadas pelos moradores ao longo do percurso, a educação dos motoristas, as faixas e cidades decoradas fizeram eu me sentir uma pessoa privilegiada. Ficamos surpreendidos também com os comentários sobre a nossa “BT Tandem” (MTB na França é BTT), depois observamos que éramos os únicos, Tandens BTT não são comuns neste tipo de prova.

Além disso, conhecemos Randonneurs de outros países que sempre passavam por nós, elogiavam, davam alguma dica ou palavra de incentivo. Em geral Randonneurs são generosos e estão ali por amor ao esporte. Pouco antes da chegada em Villaines um americano (Rick de Seatle) percebeu nossa dificuldade, perguntou o que estava acontecendo e me deu remédio para aliviar as dores.

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Fechamos um total de 1034 km (contando com os deslocamentos fora do trajeto), passamos por 11 postos de controle, faltaram apenas 3 para completarmos o percurso, saímos da prova com um total 74h. Me sinto feliz por toda a experiência, quero voltar logo aos treinos, e em 2019 estarei de volta com um pouco mais de experiência. Ficamos muito agradecidos por todos que nos apoiaram e torceram.

 

Estas são as principais empresas que apoiaram a nossa equipe na Paris-Brest-Paris 2015

Chicos Bike     n4f criações interativas   Associação Recreativa dos Correios
Rossi Service Preventivo Telhados

Arcanjo Alimentos     Vektorama.net      Cleuton Designer

 

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