“O Ironman é uma brisa se comparado a isso”… A frase é do documentário Brevet, não é minha, mas serve como uma boa introdução.

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Christiano e a esposa Erika Goulart na largada do PBP 2019 em Rambouillet (Arquivo pessoal)

O PBP é uma das provas mais antigas, tradicionais e difíceis do mundo. Acontece a cada 4 anos e requer uma série de provas antes para sua pré-inscrição e inscrição. E a caminhada foi longa…

Bom… Falando do PBP de 2019 agora, consegui atingir a primeira meta: acordar muito tarde na manhã da prova (18/08), depois das 11:00. Eu estava no pelotão G, que seria o primeiro de 90h a largar, às 17:30. Antes, largaram as bikes especiais (reclinadas e etc.) e um dos grupos que tentaria o desafio com menor tempo: 80 ou 84h. Essa era parte da estratégia para evitar filas grandes nos postos de controle e apoio (PC e PA). Cabe explicar um detalhe aqui: Assim como nas provas de 1000km, apesar da média horária do trajeto total ser de aproximadamente 13,3km/h, os primeiros 600km precisam ser percorridos com média horária de 15km/h. Em resumo, tínhamos 40h para ir até Brest, cerca de 610km, e 50h para voltar a mesma distância.

O local da largada estava lotado e era muito legal reconhecer camisas do Randonneurs Brasil. Cumprimentei muita gente e fui me enturmando.

Hora de alinhar para a minha largada. Eu estava mais preocupado em encontrar todos com quem tinha combinado e não foi fácil. Demorei um pouco para encontrar os conhecidos e ainda testei aquele mictório ao ar livre de privacidade mínima.

17:32 – Passei no sensor do chip em Rambouillet e começou a aventura: – Largamos! Não dá para descrever o que sentia, mas era muito bom: um misto de empolgação, ansiedade e, principalmente, respeito à grandiosidade e dificuldade do desafio.

Pensava que tudo o que eu havia pedalado (cada passeio, ida para o trabalho, viagem ou competição) estava ao meu favor agora. Tudo me preparou para esta batalha e agora eram como minhas armas para enfrentar minha maior prova até aqui. Não tinha o que temer… Era reunir tudo isso e tentar fazer o meu melhor. No entanto, confesso que o receio continuava, pois eram muitas variáveis para dar errado e podem acontecer muitos imprevistos fora do meu controle.

Larguei com um pouco de fome, o que não é nada inteligente para qualquer pedalada, ainda que mais curta. Mais cedo, o almoço foi num restaurante chinês muito diferente o que não deu para dar uma reforçada nos alimentos mais importantes. Contava com um lanche antes, mas não deu muito certo pois não tinha nada perto.

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Christiano Goulart puxando o pelotão rumo a Mortagne (Arquivo pessoal)

Alguns puxavam bem forte e o Tatú e eu abusamos um pouco também. Em vários trechos, ao olharmos para trás, víamos que puxávamos um pelotão bem grande. Isso durou bastante tempo e um francês emparelhou comigo para dizer que achava que eu ia quebrar. Eu respondi rindo que esperava que não e o cara apontou para frente, indicando que eu me sentisse à vontade em continuar me sacrificando pelo grupo. Quando baixei o ritmo bruscamente, brinquei com ele que eu achava que eu tinha quebrado. Sentia que o corpo ainda estava sentindo o pedal Rio-Foz. Não tinha nem 100km e eu lembrei que deveria ser prudente numa encrenca dessas. Segurei a empolgação e deixei todos se afastarem.

Parei rapidamente numa primeira cidade, onde vendiam sanduíches e bebidas em bancas na rua. O medo de não ter nada à frente me fez nem atentar para o preço que ficava meio doloroso, ao se fazer a conversão de dinhEuros para Reais, mas até que estava coerente com os preços praticados nos PCs.

Acho que passamos por muitos chiqueiros pelo cheiro que eu sentia. A pedalada não estava rendendo e verifiquei que o freio dianteiro estava pegando um pouco. Bom… Já tinha a desculpa que precisava. rs… Por ainda ser verão no hemisfério norte e pelo fato da França estar bem afastada da linha do Equador, anoiteceu muito tarde, depois das 21:30, e isso confundia ainda mais meu relógio biológico.
20:30 – Encontrei o Tatu com um pneu furado e parei para aguardar ele voltar ao pedal.

Legal que o colete não é obrigatório durante o dia, como é nos brevês no Brasil. Porém, à noite, eles exigem faróis e lanternas traseira sem piscar, ou seja, acesos diretos. Isso requer cuidado maior com pilhas e cargas nas baterias.

22:50 – Chegamos ao PA de Mortagne, km 118, e eu fui logo pedindo um sanduíche para cada enquanto o Tatu resolvia alguma coisa dele. Ainda tive que encontrar uma tomada para dar uma carga em tudo… O preço por não levar carregadores portáteis. Descobri onde encher as garrafas de graça e logo a “>Júlia chegou. Antes de sair, ainda fui rapidamente ao banheiro para “tirar a água do joelho” e retocar a “maquiagem” do traseiro.

 
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Christiano em Saint-Méen-le-Grand (Arquivo pessoal)

Dia 19/08
1:16 – Já era madrugada do dia 19/08 quando passamos do km 168. Passávamos por uma das inúmeras cidades pitorescas do caminho e eu aproveitava para fazer muitas filmagens. O projeto de fazer um vídeo documentário sobre a prova deste ano me exigia lembrar de registrar tudo o que achasse pertinente, já imaginando como ficaria na edição e qual trilha sonora usar. Isso pode parecer um problema a mais mas, na verdade, ocupava minha cabeça e me mantinha acordado e atento.

Em uma das inúmeras barracas de comes e bebes que os moradores colocaram pelo caminho, fui apresentado a umas frutinhas chamadas de mirabelles, algo parecido com uma mini-ameixa e sabor que lembra de longe uva, mas mais cítrico. – Muito gostosa!

4:47 – Chegamos ao PC1, em Villaines-la-Juhel, km 217. No local, as opções de comida não eram grande, mas dava para repor um pouco. O problema é que tem hora em que precisamos de algo mais do que pão com presunto. Consegui um espaço para recarregar as câmeras e o pisca traseiro. No entanto, apesar de ter 4 saídas USB, o carregador só consegui carregar 2 dispositivos por vez e eu só descobri isso nesta hora.

Quando saí do refeitório para ir aos banheiros químicos do lado de fora, foi que me dei conta do quanto estava frio. Antes de sairmos ainda, o Felipe Coquito, que havia largado bem depois de nós, chegou. Como víamos muitos numerais de pessoas que largaram bem depois, presumia que estávamos bem atrasados. – Será?

Tentei ser bem rápido, mas acabei tendo que esperar o companheiro de pedal antes de voltar à estrada. A madrugada já estava acabando, mas assustava um pouco a ideia de que ainda teríamos mais três longas madrugadas como aquela, ininterruptas, até que eu pudesse me desconectar totalmente da bike… e eu nem imaginava o quanto o clima ficaria mais hostil.

5:45 – Encontramos um PA e, como o rango foi caído no PC, resolvemos parar neste. Na verdade, acho que só eu comi o que deu aquela impressão de estar atrasando o parceiro de pedal nesta hora. O rango foi um macarrão com um a espécie de molho, que estava mais para ketchup, e uma fatia de presunto. Ainda ganhei um pedaço de queijo e um iogurte, enquanto que via vários ciclistas dormindo à mesa. Aliás, esta foi a imagem mais frequente e marcante do PBP.

8:26 – Depois que o sol sobe, o clima melhorava um pouco. Passamos por uma das inúmeras barraquinhas de comida ao longo do trajeto. Bolo e café para repor as energias. Controlei bem o ritmo e pedalei sozinho no trecho seguinte.

9:45 – Dei entrada no PC2, em Fougeres, km 306. Tinha uma bandeirona do Brasil no PC e algumas menores de outras nacionalidades. Esqueci de perguntar o porquê. Perdi algum tempo procurando tomada para carregar minhas encrencas e, na hora do rango, peguei uma combinação meio incomum de comidas, com salada, sopa, macarrão, croissant, pão e fruta. Sentei à mesa com dois italianos e a conversa foi sobre o TransAlp. Eles eram da região da Toscana e acho que descobri uma richa entre eles e o pessoal do norte da Itália. Antes de sair de Fougeres, ainda passamos por um castelo bem imponente num ponto mais alto. Ainda não era confortável ficar sem casaco e o sono já estava forte.

13:38 – Cheguei ao PC3, em Tinteniac, um bom local para o sono, visto que já tínhamos 360km de prova. Fiz um rango rápido e fui para o dormitório que, neste local, consistia em quartos com cerca de 4 camas bem espaçadas. Os preços eram 5 dinhEuros para dormir e 4 para tomar banho. O cobertor quentinho valeu o investimento e pedi para me acordarem em 3 horas. Porém, uma hora e meia depois, eu acordei sozinho e concluí que isso já foi suficiente para o corpo. Aproveitei para tomar aquele banho quente revigorante e trocar de roupas. A parte chata é que o registro do chuveiro era intermitente, tipo aquelas torneiras de shopping, para economizar água, algo que só tinha visto na Itália, durante o TransAlp. Saí de lá antes das 17h.

18:09 – Na cidade de Quédillac (km 386), em um cruzamento com a linha férrea, ao esperar o trem passar, encontrei uma brasileira que tinha largado em um pelotão bem depois do meu e concordamos que eu devia estar bem atrasado. No trecho seguinte, conheci a Sophie Rueter, uma francesa com quem pedalei até o próximo PC. Ela é filha de diplomata e já morou em vários países, aprendendo vários idiomas… uma boa oportunidade de gastar o meu inglês. Ela era bem simpática e estes quilometros passaram rápido.
Passamos por uma barraca de comes oferecidos por moradores e havia algo inusitado: Um mapa mundi com tachinhas coloridas para cada ciclista marcar o seu país ao passar por lá. – Muito legal! Víamos muito geradores eólicos de energia, o que me fazia lembrar muito do Cape Epic.

21:34 – Fizemos a marcação nos passaportes no PC4, em Loudeac, km 445, mas a fila para comer estava muito grande. O Sophie preferiu aguardar para comer, mas eu disse que prosseguiria por ter largado muito antes dela e, consequentemente, estar bem mais atrasado. Como eu tinha meio sanduíche no bolso da camisa, ainda teria algum fôlego até ter que comer novamente. Completei com as bananadas e os torrones que estavam na bolsa da bike. A tendência era esfriar mais e eu não queria que o corpo esfriasse também. Seriam somente mais 43km até o próximo PA.

23:45 – Passando por Saint-Martin-des-Prés, encontrei uma barraca grande com sopas e outros comes e aproveitei a oportunidade sem filas. A pedida foi sopa, pão e café com leite… um copão para não ter erro. Peguei também uma espécie de pão doce, enrolado com frutas, muito bom.

 
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Franceses decoram suas cidades para receber os ciclistas no PBP 2019 (Arquivo pessoal)

Dia 20/08:
Sem me dar conta, começa o dia 20/08, o terceiro da prova. Pelo caminho, mais sobe-e-desce e eu ia fazendo mais filmagens para o documentário. – Será que vai ficar legal?? Outra preocupação era se eu teria memória e baterias por mais dois dias.

1:02 da madruga – Chegando ao PA em St Nicolas, km 488, me informaram que deveria levar o passaporte ao “controle”. Na verdade, este era um PC secreto, outra boa oportunidade de comer mais e tentar me aquecer um pouco. O ritual de colocar as GoPro para carregar também não podia ser esquecido, assim como retocar o anti-atrito nas partes baixas.

De volta à luta… Cara, como tem subida na França!! Se estávamos indo para a costa e subíamos tanto, minha conclusão era de que a maior parte da França deveria ser abaixo do nível do mar. Descobri que estava errado da pior maneira depois.

Nas poucas descidas que pegávamos, eu deixava a bike embalar muito para compensar o rendimento tímido do momento. Alcancei e me misturei a um grupo de americanos que desciam mais marrentos, enquanto que eu aproveitava o farol deles, visto que o meu principal já estava sem energia. No quesito faróis, confesso que errei na estratégia pois deveria ter deixado o mais potente para descidas rápidas como estas, usado apenas o outro nos trecho em que eu normalmente não preciso, mas a organização da prova exige. Quem me conhece, sabe que prefiro rodar no escuro e o farol mais fraco que eu usava era mais do que o suficiente, além de sua bateria durar mais do que a prova inteira. Porém, quanto a iluminar…

2:49 – Em Carhaix-Plouguer, cheguei ao PC5, km 521. Hora de comer mais ainda. Os corredores do restaurante tinha cenário de guerra, com gente desmaiada pelo chão deitados ou não. Na verdade, eles dormiam onde dava. Sentei à mesa com outros brasileiros: Júlia, Tatú e mais outros que conheci lá. Enquanto eu comia, o Tatú deitou e dormiu debaixo da mesa com o pretexto de me esperar.

A parte a seguir seria até Brest, na costa, e eu aprendi que a França não está abaixo do nível do mar de uma forma dolorosa, com uma descida muuuuuuuito longa e congelante na madrugada. Acho que nunca passei tanto frio pedalando e depois soubemos que a temperatura chegou aos quase congelantes 3,5 graus. Eu estava com camisa de malha, manguito de inverno, segunda pele, casaco impermeável, corta-vento e ainda assim estava “batendo queixo”. O pior de tudo eram as mãos, cobertas apenas por aquelas luvinhas sem dedos e toda telada para uso no calor. Eu mal conseguia mexê-las e os dedos, endurecidos, doíam muito. Passávamos por muitas florestas, com seus bolsões de ar ainda mais gelados.

O Tatu, que me acompanhava neste trecho, estava dormindo pedalando e parou num caixa eletrônico para dormir aquecido, no estilo cela prisional. Era engraçado como estes e outros lugares inusitados ficavam cheios de ciclistas dormindo. Pontos de ônibus, marquises, bancos de praça e até os gramados se tornaram leitos aparentemente confortáveis na prova. Ainda não entendi como não congelavam.

Como eu estava com as mãos doendo de frio e com o sono relativamente controlado, preferi não parar. Porém, alguns metros à frente encontrei a melhor parte da prova: Parecia uma miragem, mas, do interior de um banheiro público, vinha uma luz verde intensa, como se fosse um “gênio da lâmpada” para conceder meu maior desejo daquela hora. Se pensaram em fortunas, Ferraris ou mansões, erraram muito. Tudo o que eu mais queria era algo para descongelar as mãos. Pois não é que a luz vinha de um daqueles secadores de mão a ar quente instalado ali a pedido do próprio Deus. Cara, que sensação fabulosa!! Acho que gastei mais de 40 minutos ali e devo ter dobrado a conta de eletricidade deles. Devo ter cozinhado as mãos de tanto que usei o aparelho. A máquina desarmou várias vezes por proteção e eu arrumava um jeito de religá-la. Provavelmente, foi a melhor parte da prova pra mim. Voltei a pedalar com as mãos quentinhas e o dia mais claro e aquecido felizmente.

Cara, a França realmente é linda! Este pedal estava sendo uma oportunidade fantástica de visitar desde as cidades maiores até o interior. Parei para fotografar alguns ciclistas que passavam e um que dormia dentro de um ponto de ônibus. Tinha uma espécie de névoa pela estrada. – Que visual!! No meio do nada, tinha uma barraca sem ninguém e com umas amoras, ameixas e uma espécie de granola – Nova parada para comer!

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Bicicleta reclinável rumo a Brest no PBP 2019 (Arquivo pessoal)

Avistei uma bicicleta reclinada onde o ciclista ficava quase que sentado no chão de tão baixa.
Passei pela famosa ponte em Brest, não resisti e tirei aquela foto épica. Este foi um dos momentos mágicos da prova também. Todos à minha volta estava fazendo registros fotográficos também e perdi um tempo lá. Tirei fotos minhas, da bike, da ponte somente e pros outros. É engraçado como vencemos a barreira do idioma nestas horas. Eu acreditava passar lá na volta, mas o trajeto era outro. Vale aqui elogiar a marcação do trajeto da prova novamente. Era muito fácil seguir as indicações pelo caminho até o próximo PC.

9:18 – Cheguei ao meio do desafio, o PC6, na cidade de Brest, km 610. Como diria um amigo meu, “agora é fácil… é só voltar”. Porém, antes, é hora de reabastecer o corpo. Depois de deixar a bike no estacionamento, ir ao banheiro e fazer a marcação no passaporte, vamos para o restaurante. A fila estava pequena e as opções eram muito boas. Aproveitei para deixar as câmeras carregando e fazendo registros no modo Time lapse para o documentário.

Encontrei a Júlia neste restaurante e outros brasileiros. Logo chegou o Tatu e combinamos dormir lá por uma hora e meia. Eu estava meio tenso com os horários de fechamento de cada PC e o pessoal tentava me tranquilizar, mostrando os horários que estava impressos no passaporte. Grande erro! …da organização e nosso em confiar nisso. Estes horários diziam respeito apenas ao pessoal que largou no último pelotão, mas eu não percebi isso naquela hora.

As opções de comida foram uma das melhores de todo o trajeto: ratatouille, macarrão com molho de tomate, salada, salame, pão, iogurte e maçã. Barriga cheia, é hora de dormir um pouco. Depois de acordar e pegar tudo, era hora de pegarmos a estrada novamente. Hora e subir tudo o que tínhamos descido infelizmente. O Tatu me apressou e eu corri tanto que acabei tendo que esperá-lo para sairmos.

Passamos por um local que parecia ter sido tirado de alguma revista: beirávamos um rio muito limpo e com casas bem bonitas do outro lado. Um ciclista oriental se aproximou, perguntou se nos importávamos em que ele nos acompanhasse e eu disse que claro que ele seria benvindo.

Cruzamos uma ponte à direita e achei que o Tatu tinha ficado para trás. Perguntei ao oriental e ele também não sabia, mas achava que ele estava à frente. Voltei um trecho razoável, mas não o encontrei. Como eu lembrava de estarmos juntos antes da ponte, concluí que ele deveria estar realmente à frente. A cabeça não estava funcionando bem e resolvi arriscar seguir para aguardá-lo no próximo PC. Eu também não estava com muito tempo para desperdiçar ali.

Encontrei um casal de americanos e fomos conversando durante um tempo. Ela ia jogando broches de seu clube aos moradores locais e eu ganhei uns também.

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Christiano e seu cockpit durante o Paris-Brest-Paris (Arquivo pessoal)

Nos períodos diurnos, eu fazia questão de guardar o meu colete enrolado na bolsa da frente, de maneira que eu ficasse vendo o logo do PBP, para eu não esquecer que aquilo realmente estava acontecendo. O mais legal era que a cada hora, eu estava pedalando com ciclistas de países diferentes. Em parte deste trecho, segui conversando com um alemão. O cenário de guerra ia ficando mais forte com corpos de ciclistas desacordados pelos gramados próximos à estrada. Neste dia não fez tanto calor e continuei com a segunda-pele.

15h – Passamos por Sizun e, assim como em diversas outras cidades, mais famílias colocaram suas barracas com quitutes para nos mimar. Eu meio que perdi a linha ao pegar damasco e chocolate amargo em uma delas e tirei uma foto dos responsáveis. – Muito bom!!

Encontrei o casal, Luciana e Adriano, que se conheceram no brevê de 1000km em Bagé de 2017 e comemoraram 1 ano de namoro na edição que eu fui, em 2018. – Muito legal esta estória!

Mais ciclistas desmaiados pelo caminho e cenas inusitadas como sanduíches presos à garupa junto com uma tranca de bike e sem nenhuma embalagem ou guardanapo. Isso foi outra coisa que achei engraçada por lá: a noção de higiene é bem diferente.

Outra cena inusitada: Naquelas placas em que tem um viadinho, alertando aos motoristas sobre a possibilidade de atropelamento destes, alguém colou um adesivo de um espécie de Gnomo cavalgando sobre ele.

17:23 – Eu chegava ao PC7, km 693. A cidade de Carhaix-Plouguer já nos dava boas vindas novamente com umas estátuas de ciclistas de metal, em tamanho real, no momento de um sprint. Engraçado como tinha até a possibilidade de vinho neste PC… Seriam motores Flex? Tentei não perder muito tempo lá. Em Laniscat, uma das cidades por onde passamos, haviam placas de incentivo ao ciclistas e informações sobre a prova como distância percorrida, números de atletas e etc. Dava para ver muitas vacas pelo caminho e uma cena inusitada: um cavalo com uma espécie de capa de chuva. Passamos por outra cidade toda enfeitada para a prova e a sinalização do trajeto continuava impecável.

20:30 – Novamente, o PA de St. Nicolas do Pelem (km 738) era um PC secreto, ou quase… Optei por comer um pouco de arroz “com elementos”, umas fatias de bolo e peguei um sanduíche para depois. Ainda esqueci de acender o farol na saída e escutei um fiscal gritando: Lumiere, monsieur! Nada de grave felizmente.

23:25 – Fiz a minha marcação no PC8, em Loudeac, km 783. Novamente, a fila para a comida estava gigantesca e optei por seguir sem comer lá. A idéia também era não deixar o corpo esfriar muito porque a volta para a estrada costumava ser doída àquela temperatura.

 
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Christiano Goulart no interior da França (Arquivo pessoal)

Dia 21/08:
…e viramos outro dia sem perceber.
1:20 – Passei na casa de um sujeito que eu havia conhecido pelo filme Brevet. O interessante é que ele serve comidas e tudo mais, mas não deixa pagar por isso. Ele te dá um papel com o endereço dele para que envie um postal do seu país depois. Com isso, ele tem alguns milhares de postais em caixas ou pelas mesas e paredes da sua garagem.

No trecho seguinte, os olhos teimavam em fechar e eu me esforçava muito para ficar acordado até a próxima parada. Sabe quando o sujeito dá aquelas piscadas de 2 ou 3 segundos e tenta manter a bike em linha reta? Então… meus olhos ficaram mais de 4 segundos fechados algumas vezes e o risco só ia aumentando. O raciocínio já estava tão confuso que nem a matemáticas das distâncias, tempos e médias me mantinha lúcido o suficiente. Era uma daquelas horas em você realmente está encostando no seu limite.

3:30 – Passei pelo PA de Quédillac, km 843, onde não havia a obrigatoriedade de parada, mas eu precisava muito dormir. O problema foi que estava tão lotado que tinha que esperar numa fila onde alguns já dormiam. Tinha gente caída por todo o lado. Então, como a distância até o seguinte não era tão grande (cerca de 26km) segui pingando de sono mesmo. Ao ver outros ciclistas pelo caminho e pensar que todos poderiam ter adotado a mesma estratégia que eu, de dormir no próximo PC, forcei muito: – Hora da “carnificina”! Eu não podia perder a chance de pousar lá e tratei de pedalar como se a prova acabasse ali. A parte boa foi que sono ficou bem mais controlado. Porém, não é nada prudente sacrificar a musculatura assim com tanta prova pela frente ainda. Foi na raça esta parte e espremi o que tinha para chegar logo. A velocidade e o fato de passar um monte de gente me empolgou e ajudou muito.

5:00 – Cheguei tão quebrado ao PC9, em Tinteniac (km 869), que nem raciocinei direito ao pedir para dormir por 5 horas. O responsável por nos acordar até se assustou, mas acatou ao meu pedido insano. GRANDE ERRO e poderia ter me custado a prova. Acordei um pouco antes das 10:00 e me dei conta da lambança. – Agora, como corrigir??

Nem tomei banho, esqueci o manguito de inverno e peguei umas coisas para comer no caminho e não perder mais tempo. Foi bem tensa esta parte.

Neste trecho, tive a sorte de encontrar o Marcelinho, de Minas, um cicloturista com muitas viagens realmente longas de bike e muita experiência sobre o assunto. Ele já era randonneur muito antes de saber sobre a modalidade. Ele tem um blog, o “pedala marcelinho”, e conversamos muito neste trecho.

11:46 – Como se não bastasse o atraso pelo sono, o safado do meu pneu dianteiro, sobre o qual eu batia no peito para falar que já tinha uns 7000km e sem furo, esvaziou duas vêzes e paramos para eu encher o meliante. Nada que obrigasse a usar a câmara de ar reserva felizmente.

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Christiano com a dupla do Tripedal e Omar no PBP 2019 (Arquivo pessoal)

13:02 – Chegamos ao PC10, em Fougeres (km 923) e cada um foi resolver as suas pendências. Antes, passamos pelo mesmo castelo que fotografei na ida, mas eu nem lembrava. Encontrei o casal “Tripedal” e acabou que, depois de tudo, a própria Júlia me passou o arquivo para upload no Strava porque o meu teve problema. Mais uma camisa do Brasil: era o Osmar, incentivando e tirando fotos.

O Marcelinho me indicou o mecânico e fui tentar colocar mais selante no pneu que esvaziava, mas ele não tinha. Encontrei alguns brasileiros lá tiramos uma foto, Luciana, Miguel e eu, na bandeirona do Brasil sobre a qual comentei na ida. Eles e o Raniel me chamaram para almoçar no restaurante em frente, mas eu achei melhor não comprometer mais o meu tempo.

Ao comprar um croissant neste PC, o vendedor o pegou e colocou em cima da bancada direto com a mesma mão que pegou o meu dinheiro e o troco. A fome e a pressa eram tão grandes que nem questionei. O banheiro tinha uma fila meio grande, mas era para o vaso sanitário, que não era a minha pendência felizmente. É engraçado porque parece que o corpo entra em um regime de aproveitar tudo tão ao máximo que você raramente precisa ir ao vaso.

Pé na estrada e novamente quebrei a barreira dos 4 dígitos (1000km). Em uma das barracas de comes dos moradores, um dos ciclistas ingleses que conheci no trem no dia da retirada do kit se lembrou de mim e veio conversar. Além de café, leite, bolos e frutas, eles também tinham chocolate amargo. Isso é pegar pesado com o meu alto controle e sai de lá com a mão tão cheia que quase dava vergonha… Quase…

Passamos por muitas áreas rurais e era interessante como eles enrolavam o que eu acredito ser feno. Em alguns locais, eles faziam esculturas como bonecos e um trator gigante. Era legal também como todos nos cumprimentavam pelo caminho. Como em outras provas que fiz, as crianças ficavam com as mão estendidas aguardando que batêssemos nelas.

Avistei um grupo de brasileiros e começamos a conversar. Um deles era o César Dosso, de um grupo do sul, que eu já conhecia de nome. O papo foi bem legal e durou bastante. Ele comentou sobre uma prova de 1300km que estam preparando para 2020. Peguei altas dicas com o cara, que tem muita bagagem neste tipo de prova. Coincidentemente, neste horário, a Erika tinha conhecido a esposa dele e estavam passeando por Paris em grupo. Alcançamos mais uns do grupo dele e tinha outro maluco de mountain bike. Eu não era o único.

O cenário continuava bem verde e com casas de pedra muito bonitas. Os moradores ficavam pelo caminho torcendo e incentivando. Numa banca de comida que encontrei depois, tinha até tâmara e salame. – MEU DEUS!!!

Os modelos de bike eram os mais variados também. Passei por um inglês que tinha uma bike bem nova, mas com acessórios e visual de bikes antigas. Além, das inúmeras reclinadas e carenadas. Ao conversar com ele, descobri que se trata de um modelo retrô, mas que a bike era nova. – Muito legal!

18:21 – Cheguei a Villaines-la-Juhel, km 1021 e local do PC11, e a cidade estava em festa. Um voluntário que falava português me recepcionou e me levou para receber massagem de umas senhoras da cidade. A massagem foi mais para um carinho de tão suave, mas o produto que elas passaram tinha um cheiro forte de cânfora e melhorou muito as dores que eu sentia nas costas.

Na hora do almoço, umas crianças, que nos recepcionava, nos perguntavam se preferíamos almoçar ou lanchar e eu optei por lanchar ao saber que havia fila para almoço. Me sentei à mesa com o pessoal do sul, que já almoçava, e me disse que havia prioridade na fila do almoço para os atletas. Resolvi guardar o sanduíche para depois e fui buscar um almoço, que era o que eu mais precisava. Desta vez, foi macarrão, salada, salada de frutas e suco de laranja. Um senhor no caixa pediu para tirar foto comigo por causa do meu uniforme do Brasil e eu tirei uma foto com o meu celular e o dele também. Deixei uma das Gopros carregando fazendo um Time lapse do refeitório, mas dois “boca-abertas” ficaram em pé em frente o tempo todo mexendo em seus celulares que carregavam também…

Na saída, voltei à massagem para passar um pouco de creme para dor nos joelho e acabei ganhando uma massagem nesta parte também. Ainda escutei uma música local muito legal que consegui pegar o nome com o celular e vou usar na trilha sonora. – Anotem aí: “Talec/Noguet – Gali Galant”.

20:20 – Ao pegar a estrada novamente, encontrei uma árvore carregada de amoras ou framboesas… Não tenho certeza. O fato de escurecer tão tarde, realmente me confundia bastante. Quando finalmente escureceu, pegamos um trecho de subida meio longo. Passei um casal que conversava sem parar e parece que eles aceleraram para me passar novamente. – Sem problemas até aí! Serviu como incentivo e mantive um ritmo mais forte também para deixá-los para trás. Já tínhamos mais de 1000km, mas ainda dava para brincar um pouco. Depois de muito tempo, quando voltei ao pedal após uma parada para colocar mais roupa, escutei eles se aproximando e o cara me passou muito perto, quase esbarrando do meu guidom e me deu um ligeira fechada. O sono acaba nos privando um pouco da educação e falei “IDIOTA” bem alto. Acho que o cara entendeu porque ele ficou repetindo para a mulher algo tipo: “IDIOTÊ, IDIOTÊ, IDIOTÊ…” Bom… Não sei se a palavra existe, mas acho que vencemos a barreira do idioma e consegui passar a mensagem.

22:47 – Um PA surpresa carregado de comida e de graça. Tinha sopa, cereal, banana, umas barras de chocolate amargo muito boas e café com leite. Acho que foi um dos PAs em que mais comi. Perdi a conta de quantas barras de chocolate peguei, mas era algo indecente. Sentei junto a dois alemães/austríacos e, na conversa, acabou rolando futebol, lembrando do nosso vexame de 2014 na final da copa do mundo de futebol.

 
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Christiano em Fougères (Arquivo pessoal)

Dia 22/08:
Assim como seus antecessores, o dia 22/8 chegou sem ser notado. Na minha cabeça, eu fiz uma conta errada e esqueci da distância de um PC, o que melhorava muito a minha previsão de chegada, ou seja, meu tempo continuava sem muita folga na verdade. Eu tinha que fechar até às 11:30.

0:47 – Dei entrada no PC12, na cidade de Mortagne-Au-Perche, km 1097. Já estava um frio cortante e a tendência era piorar ainda mais. O trecho seguinte passava por uma floresta com muito pouca área urbana para qualquer emergência e um clima bem gelado. Naquele frio todo, eu ficava surpreso em ver ciclistas deitados pelos gramados e cantos, enquanto que eu temia ter algum problema mecânico que me fizesse parar e esfriar o corpo.

Então você entra numa espécie de transe ou em outra dimensão, suas percepções mudam e mesmo desamparado, você se sente protegido e forte. O tempo passa de maneira diferente e passa a ser medido em distâncias, assim como as distâncias têm sua mensuração em tempo. Distâncias de centenas de quilômetros e horas sem parar passam rápido e perdem seu poder de intimidação. Não tem como eu te fazer entender isso sem te arrastar para uma encrenca dessa.

Eu deixava a bike embalar bem nas descidas e cheguei a errar uma entrada. Felizmente, me dei conta ao passar por outra bifurcação e não ver nenhuma sinalização nela. De volta ao caminho certo, o frio estava de doer novamente. Faltava pouca distância para o próximo PC, mas não chegava nunca.

5:09 – Finalmente, cheguei ao PC13, o último da prova, em Dreux, km 1174. Já que estava frio para valer, a ideia de prosseguir sem dormir foi descartada até o sol dar o ar da graça. Para meu desespero, o ginásio onde serviam as refeições não era aquecido. Pensei até em tomar um banho mas a roupa limpa, toalha e sabonete estavam na bike, no estacionamento do lado de fora, e provavelmente congelados a esta hora. Fiquei conversando com um ciclista inglês na hora da refeição e, ao ver até um europeu temendo o frio externo, reafirmei a escolha de ficar ali até o tempo esquentar.

Neste PC, o cenário de guerra era pior ainda e não havia onde se deitar. Ao ir ao banheiro, encontrei um banco vazio no vestiário entre todos os outros lotados por lá. Acho que pela aglomeração de pessoas ou pelo vapor dos chuveiros estava mais quente lá. Aproveitei para descansar um pouco lá e dormi no banco do vestiário mesmo. Estava mais confortável que cama king size de hotel 5 estrelas. Deitei por uma horinha e coloquei o despertador por segurança.

Saindo para o último trecho, estava um amanhecer muito bonito e bem menos frio. Isso empolgava bastante, mas as energias estavam bem no fim. Eu já estava quase sem memória no último cartão SD que eu ainda tinha e este trecho era o mais importante a ser filmado. Tive que ser econômico sem perder o mais importante. Na minha cabeça, eu escutava nítida a trilha sonora que escolhi para este final e quase chorava com o desfecho positivo para o qual estava indo esta a aventura.

Já passava dos 1200km e eu tentava observar tudo com o olhar de quem sabia que aquela experiência sensacional estava acabando. Se aproximando de Rambouillet, eu ia reconhecendo parte do caminho. Fiz a última pausa para tirar a água do joelho em mato francês e mais um grupo de ciclistas me passou. Nada me abalava mais.

Finalmente, entrei no parque e o movimento de pessoas e bicicletas era maior. – Ainda bem que lembrei de ligar a câmera. Será que o filme dá até o final?

Já no meio do pessoal que recepcionava os ciclistas, avistei um pedalando à minha frente. Pedalei em pé para a última ultrapassagem. Avistei outro e dei a última acelerada… – Este sim era o último!

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Christiano Goulart na chegada do PBP 2019 (Arquivo pessoal)

9:57:22 – Finalmente, cruzei o pórtico, com 88 horas, 24 minutos e 39 segundos. Felizmente, dentro das 90 horas exigidas para estes 1219km.

Avistei a esposa e, ao parar para um rápido beijo comemorativo, atrapalhei o ciclista que vinha atrás. Pedi desculpas e ele levou de boa.

– Cara, consegui!! Nem sei como aguentei tanto frio e tanta subida. Obrigadão, paizão, por realizar este sonho!

As filmagens e fotos resultaram em quase 240GB para fazer o documentário. Vamos ver como fica! Nos piores momento da batalha, me prometi nunca mais entrar numa encrenca dessas. Será que vou cumprir??

Christiano Goulart

 
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Brazucas finalistas do PBP 2019 (Arquivo pessoal)

 

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