A Expedição Chapada dos Guimarães foi um divisor de águas nos desafios propostos pelo Tripedal, que testou as nossas capacidades físicas e emocionais, proporcionando grandes ensinamentos para a equipe.


Imagens da Expedição Chapada dos Guimarães por Darley Cardoso (arquivo pessoal)

Desde que comecei a série de expedições pelas principais chapadas do Brasil, a Chapada dos Guimarães me parecia ser o maior desafio, tanto pelo afastamento geográfico quanto pela escassez de relatos de cicloviajantes. Há uma dificuldade em extrair informações de percursos e trilhas dos nativos, e a comunicação com os guias na maior parte das vezes é manipulada e truncada. (» Em breve: Veja as nossas dicas para pedalar e evitar ciladas na Chapada dos Guimarães)

Mesmo assim, quando fiz o planejamento da rota e até a largada em Cuiabá, tudo indicava que esta expedição seria uma das mais tranqüilas, com pedais curtos e fáceis, principalmente no primeiro e no último dia. Mas foram exatamente esses dias os mais difíceis, a ida e a volta, foram os que exigiram maior preparação física e técnica, acredito que a ida foi até hoje a etapa mais dura de todas as nossas expedições.

Partimos de Cuiabá na manhã do dia 15 de junho, saímos rápido da área urbana e entramos nos longos trechos de estradão com muita poeira, calor e céu de brigadeiro. O nosso ritmo se manteve constante, com poucas paradas para agrupamento até o início da trilha, e logo na entrada vi o primeiro sinal de vida selvagem, próximo a um córrego haviam pegadas de onças que pareciam ser uma mãe com o filhote indo na direção da mata a nossa frente.

A trilha que deveríamos percorrer estava bem fechada, com muito mato, pedras soltas e árvores caídas. Quanto mais próximo do paredão da Chapada, mais a mata ficava fechada e maior a inclinação do terreno. Para se ter uma idéia, saindo de Cuiabá para a Chapada dos Guimarães, praticamente só há uma subida constante, sendo que nos últimos 5km há um ganho aproximado de 500m com a inclinação chegando entre 36% até 45,9% em alguns pontos.

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Rodrigo enfrentando a primeira parte do desmoronamento (@Tripedalnet)

Até então, tudo estava dentro do planejado e chegaríamos na hora do almoço na cidade de Chapada dos Guimarães, seguíamos a trilha dentro da mata até que nos deparamos com um desmoronamento, terra afundando, pedras soltas, grande quantidade de árvores caídas e a partir deste ponto perdemos a trilha, pois não era possível seguir o caminho indicado pelo GPS.

Então resolvemos escalar o morro a fim de contornar a parte fechada da trilha ou tentar encontrar uma alternativa para seguir por outro caminho. Após a primeira parte da escalada, nos dividimos, Rodrigo começou a abrir caminho pelo bambuzal morro acima e eu contornei para verificar por onde a trilha seguiria até me deparar com um paredão de laje que minava água pelas pedras, o que seria bem difícil de escalar com as bicicletas nas costas. E optei por voltar e ajudar o Rodrigo a abrir caminho na segunda parte da montanha. Neste ponto, a Júlia seguiu a frente para tentar avistar alguma saída do alto da montanha, nós continuamos abrindo caminho no mato e carregando as bicicletas, eu escalava uns 50m com a minha bike, voltava e carregava a da Júlia, trocava de bike e subia mais um pouco. No fim das contas, levamos 3 horas para escalar o morro, eu estava exausto, não agüentava mais carregar bicicletas e minha água havia acabado

Foi quando a Júlia retornou, dizendo ter avistado uma estrada, na próxima montanha, continuamos a subida rumo ao local que ela indicou, apesar de íngreme nós já conseguíamos empurrar as bicicletas, nesse ponto só de não ter que carregar já estava ótimo.

Ao chegar no topo fiquei preocupado, pois a estrada que a Júlia havia visto era apenas uma trilha que seguia em direção a um paredão de pedra, sem indicar continuidade ou passagem. De qualquer forma, lá de cima, avistamos Cuiabá e todos os vales que percorremos, uma vista magnífica e um deslumbramento que só não foi maior porque o horário me incomodava, começava a escurecer e estávamos isolados, cercados de montanhas e mata fechada.

Em um ponto desta montanha, confirmamos no GPS e na imagem do satélite que estávamos na direção certa, apesar do paredão para escalar com aproximadamente 2 lances de 50m cada e com alguns trechos dentro da mata, encontraríamos uma trilha ligada a estrada que nos levaria ao nosso destino.

Por segurança, assim que conseguimos sinal do celular, avisamos ao pessoal que tivemos problemas no percurso e caso não conseguíssemos chegar até a estrada. Afinal, já estava escuro, e é nessa hora que os animais selvagens saem para caçar, há muitas cobras peçonhentas nessa região, e há o risco de hipotermia na madrugada. Sugiro que você faça o mesmo neste tipo de situação, marque a sua localização e deixe um aviso sobre o seu percurso.

Traçamos a nova rota e a gente teve que abrir uma parte do mato no peito, carregamos as bikes até onde deu e as escondemos no mato para começar a escalada. O primeiro paredão de pedra foi difícil, e no escuro não conseguíamos encontrar as melhores rotas, fomos por onde o braço e a perna alcançava. Subimos o segundo na mesma situação e dai em diante abrimos caminho no mato novamente, estávamos economizando a energia das lanternas e esgotando a energia corpo, até que encontramos a trilha que havíamos visto pela imagem do satélite, estava bem apagada e tomada de carrapichos, mas tínhamos a direção da trilha até a estrada no platô da Chapada.

O dia seguinte começou com um trekking para resgatar as bikes, após uma coleta de informações e estudar os pontos do GPS que eu havia marcado para retornarmos, conversamos bastante com o Naldão, um dos poucos guias que conhece a região além dos pontos turísticos do parque nacional e que faz (abre e mantém) trilhas de mountain bike na localidade. Assim, conseguimos chegar até as bikes e voltar por um caminho de mula que margeia o lado externo do parque no sentido dos paredões que escalamos na noite anterior. Seguimos por ligações de trilhas, estradas de terra e trechos de areia pelo Vale da Benção até a cidade de Chapada dos Guimarães, a fim de completarmos metade do percurso previsto da nossa expedição.

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Cachoeira Véu de Noiva e mirante aberto ao público no Parque Nacional (@Tripedalnet)

O terceiro dia foi o pedal mais tranqüilo, com cicloturismo e caminhada nas trilhas das cachoeiras do parque nacional. No período da manhã, pedalamos na rodovia, movimentada e sem acostamento, até a entrada do parque, onde é obrigatório deixar a bicicleta na portaria e seguir pela trilha caminhando, o percurso é curto e de fácil acesso. São 3 cachoeiras com entrada gratuita: Véu de Noiva, Namorados e Cachoeirinha. Dentro do parque nacional não é permitido a prática de ciclismo em trilhas e existe um viés até mesmo para locomover de bicicleta nas estradas dentro do parque sem pagar caro por um guia da associação local. Por isso, preferimos seguir e conhecer melhor a simpática cidade de Chapada dos Guimarães, que conta com boa infra-estrutura de hotelaria e gastronomia. No período da tarde, fizemos um novo passeio circundando os paredões da Chapada, passando por estradas de terra e trilhas até alguns dos principais mirantes, a fim de fechar o reconhecimento da parte superior do platô.

No percurso de volta para Cuiabá, esbarramos com os problemas burocráticos e de reserva de mercado que prejudicam o cicloturismo na Chapada dos Guimarães, pois a nossa rota prevista passaria dentro do parque nacional, e mesmo contratando um guia credenciado para o setor que pretendíamos atravessar, tirando vouchers e com as devidas comissões dos associados, o nosso guia não poderia retornar sozinho após cruzarmos o parque. Achamos muito estranho as argumentações, e optamos por evitar as possibilidades de extorsão por parte dos guias mal intencionados.

Considerações feitas, resolvemos enfrentar o que seria o percurso planejado originalmente para vir até a Chapada dos Guimarães. Também por uma questão de honra, preferimos passar por este caminho e concluir a missão do jeito mais difícil e sem contribuir para a corrupção local. Combinamos com o Naldão, um dos guias bem intencionados, que nos guiou por trechos de estrada e trilhas rápidas na mata e nos deixou no início da descida no caminho de pedras, essa parte é bastante complicada, pois corre água entre as pedras soltas, há muito lodo, e um despenhadeiro que as vezes aparece entre a fenda da montanha. Além das árvores caídas, que são mais constantes no topo da montanha. Esses fatores tornam a descida perigosa e lenta, partes da trilha ficam ocultas embaixo da vegetação espinhosa e dos troncos, mas a vista e as sensações são tão grandiosas quanto os paredões de arenito que avistamos sempre que há uma abertura na mata.

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Árvores caídas fechando a trilha na maior parte do percurso (@Tripedalnet)

Outro momento de tensão foi quando eu estava atravessando em meio aos galhos de uma seqüência de árvores caídas e senti um cheiro forte de urina de felino, ainda com um vapor quente que contrastava com o frio e úmido ar da manhã no meio da mata. De imediato comecei a fazer barulho e chamar pela Júlia, que ficara um pouco pra trás e não respondia, a partir desse momento comecei a seguí-la até a saída da trilha, cantarolando e fazendo barulho, e ela sem saber o motivo daquilo, achou que eu havia delirando.

Descemos mais um pouco e chegamos a parte do desmoronamento, agora no sentido contrário, pude identificar onde as árvores caídas haviam fechado a passagem e onde contornar, a partir dai foi descer e pular troncos até o final do vale. Após uma rápida parada no córrego das onças para abastecer, foi só apertar o ritmo no estradão até chegarmos em Cuiabá.

Todas as expedições que fizemos foram especiais pra mim, cada uma despertando algum tipo de emoção, felizmente sempre fizemos novas amizades e reforçamos os laços existes, são uma chance de colocar nossas habilidades em prática, de superar limitações e improvisar. Na Chapada dos Guimarães graças a um acidente natural que nos forçou a mudar de rota e perder o rumo, tivemos a oportunidade de sair do planejamento e ter uma experiência mais rica de contato com a chapada, que somente a errância pode proporcionar. E nas situações extremas, foi marcante o trabalho em equipe, que nos tirou literalmente da beira do abismo e garantiu o êxito na conclusão do nosso objetivo.

 

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