O camelo candango que virou lenda sobre duas rodas
Se você já pedalou em Brasília, provavelmente já viu uma. E se nunca viu, certamente já ouviu falar da mítica Nuvem — uma bicicleta que é mais que um meio de transporte: é símbolo de resistência urbana, criatividade candanga e muito estilo no asfalto.
Camelo, mas com pedigree brasiliense
Por aqui, bicicleta tem apelido carinhoso: é camelo. E a Nuvem… bem, a Nuvem é um camelo com história. Diz a lenda — ou melhor, contam os próprios personagens dessa crônica do Cerrado — que tudo começou entre o fim dos anos 70 e início dos 80, quando o folclórico Zé Cadima, também conhecido como Zé do Pedal, decidiu montar a bike dos sonhos.

Usando o quadro esguio de uma Monark Monareta Gemini 69, que era chamada de “quadro fino” por razões óbvias, Zé misturou peças de diferentes modelos com uma engenharia criativa digna de mestre. A coroa era de 56 dentes, os pedais estilo “picolé”, o freio contra-pedal Favorit, e um clássico da Caloi 10, arrematado com um “olho-de-gato” retirado da lendária Yamaha RD 350. Ah, o guidão vinha da Berlinetinha 70/71, e os aros de alumínio eram da rara Caloi Fórmula-C 73.
O resultado? Uma bike magra, pequena, veloz e com tanta personalidade que logo ganhou o apelido de Camelinho. Mas não demorou pra virar algo maior: uma Nuvem.
Muito mais que fumaça (ou talvez exatamente isso)
Por que Nuvem? Bom, a explicação mais… “aromática” vem de quem viveu essa época. Como o freio era contra-pedal, os braços ficavam livres. E o que os jovens candangos levavam nas mãos? Exatamente: cigarrinhos “exóticos”, que deixavam um rastro de fumaça poético (e um pouco suspeito) pelas ciclovias improvisadas da cidade. “A galera ia pedalando e a fumacinha seguia atrás…”, conta Filemon Carvalho, o Filé, artesão das Nuvens há mais de 35 anos em Sobradinho – DF.
No início, a Nuvem era marginalizada. Era a “bike dos maconheiros”. Mas o tempo é mestre e, como todo bom ícone cultural, ela virou cult. Hoje, faz parte da paisagem urbana da capital tanto quanto os pilotis, o concreto de Niemeyer e o céu aberto do cerrado. Tem quem monte artesanalmente até hoje, seguindo o molde das Monaretas. Tem quem colecione. E tem quem, com um toque de orgulho no olhar, diga: “Essa aqui é uma original do Zé Cadima”.
Da Asa Sul ao Eixão, do rock ao rolé
Nos anos 80, auge do rock brasiliense e da geração Legião Urbana, dar um rolé com a Nuvem era status. Os joevns da Asa Sul disputavam rachas no Eixão como se fossem finais de Tour de France, derrotando bikes importadas na força da perna e da criatividade mecânica. Com aro 20 e jeitão invocado, a Nuvem virou símbolo de uma juventude que respirava música, rebeldia e liberdade em duas rodas.
E ela resistiu. Resistiu ao tempo, à tecnologia, ao preconceito. Com o boom das ciclovias, Brasília redescobriu o prazer de pedalar — e com ele, a Nuvem voltou a flutuar pelas ruas.
Patrimônio candango sobre duas rodas
Hoje, a Nuvem é vista discretamente cruzando o Parque da Cidade, o Eixão do Lazer ou as paralelas das quadras. Não faz barulho, mas quem conhece respeita. Ela é parte da alma da cidade: um camelo magro, veloz e cheio de história.
E como diria o próprio Zé Cadima, personagem que virou até documentário:
“A Nuvem foi minha criação que acabei deixando pra humanidade.”
Pois que sorte a nossa, Zé.
Veja também
» Zé do Pedal, acima da terra embaixo do céu
CARDOSO, Darley. Nuvenzinha: camelinho brasiliense. Artigos, Tripedal.net, 3 de fevereiro de 2021. Disponível em: https://tripedal.net/nuvenzinha-camelinho-brasiliense/. Acesso em: 5 de março de 2026.

















