A desconhecida história de Rubens Pinheiro, o homem que pedalou de Salvador a Nova Iorque, mas foi ofuscado por uma miss.

De Bicicleta pela América
De Bicicleta pela América – Ilustração: Marcelo Armesto dos Santos

Salvador, 1979

Rubens Pinheiro conduz sua cadeira de rodas pelo jardim do Passeio Público, no bairro do Campo Grande. Costuma passar o tempo conversando com conhecidos de antigas épocas e amigos de ocasião. Tem 70 anos de idade e quem trocou algumas palavras com ele já o ouviu falar que, há coisa de meio século, fez o trajeto Salvador-Nova Iorque pedalando numa bicicleta. Um Raid que ninguém no mundo jamais ousara fazer e, pasmem, inédito também na provincial e cosmopolita Bahia. Agora, Rubens tem a esperança de que a história mais marcante de sua vida não fique soterrada pelos causos do dia a dia que ouve e conta nas ruas da velha cidade. Dessa vez, ele tem em suas mãos um livro que acabou de ser publicado sem estardalhaço, nem edição de luxo. Ele mesmo é o responsável por ir de porta em porta vender os exemplares. Quer deixar ali registrada, para a posteridade, a história de como demorou dois anos para cruzar sozinho, montado em uma bicicleta da marca alemã Opel, os 15.750 quilômetros que separam a Roma Negra da Big Apple, oscilando entre o medo e a coragem. E uma dose mais do que necessária de esperteza.

 

Salvador, 1927

Fogos de artifício estouram na manhã do dia 15 de março para anunciar a partida de Rubens Pinheiro da capital baiana. Vestido com roupa de escoteiro, tem só 18 anos de idade e míseros dez mil réis no bolso. Leva um saco de lona para guardar roupas, além de um livro com capa de couro de cobra feito especialmente para a coleta de assinaturas durante o caminho. Conseguiu juntar o pouco que tem depois de pedir doações, distribuindo cartões nas melhores e mais bem frequentadas confeitarias e também no comércio da cidade. Uma multidão de curiosos acompanha a despedida do ciclista. Muitos dizem que ele não resistirá e, caso não desista no meio do caminho, será devorado por algum bicho ou capturado por uma tribo de índios canibais. Ele conversa com a imprensa e se diz disposto a tudo para concretizar a façanha.

– Quero conhecer Nova Iorque sem ser só em fotografia.

Rubens faz um pequeno tour saindo da porta do palácio do governo, descendo em seguida a Ladeira da Montanha, para depois passar em frente à redação do Diário de Notícias. O povo acena, enquanto os amigos mais próximos o acompanham pela estrada durante os quilômetros iniciais. Ele está deixando para trás os tiroteios, aventuras e emoções das matinês do Cinema Olympia, com as gargalhadas, coladas e algazarra na geral que seriam eternizadas quatro décadas mais tarde na música de Caetano Veloso cantada por Gal Costa. Está ficando distante das surras que recebia em casa pelas travessuras que aprontava e dos bolos na mão que levava na escola pelo mau comportamento. Já tinha até ensaiado duas vezes sua grande andança, primeiro quando fugiu de casa para se libertar de uma infância triste que o impedia de frequentar os jardins públicos que tanto fariam parte do cenário de sua velhice, depois quando resolveu ir a pé de Salvador ao Rio de Janeiro. Estava se livrando também da labuta pesada na lavoura de cacau do pai, que não lhe dava refresco, mas ficava sem a sorte grande do jogo do bicho na Baixa dos Sapateiros.

Um ano antes, de passagem pela Cidade da Bahia, o forasteiro pernambucano Maurício Monteiro havia convidado Rubens a seguir viagem com ele, de bicicleta, rumo à Argentina. O baiano recusou, alegando falta de preparo. Monteiro aproveitou a rivalidade entre os dois estados pra fazer chacota, dizendo que um baiano jamais conseguiria uma proeza daquelas. Mas Rubens não engoliu o desaforo.

– Talvez haja um baiano que faça uma maior do que a sua.

 
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“Raid Brasil New York en Bicicleta”. Rubens Pinheiro na estrada com sua Opel. Foto: arquivo da família

Por terras nunca antes pedaladas

Para chegar até Nova Iorque seria preciso aventurar-se no meio do nada, por isso Rubens teve o cuidado de pedir a um engenheiro da prefeitura de Salvador que o ajudasse a traçar uma rota precisa. O homem lhe disse que não tinha como fazê-la e orientou-o apenas a procurar sempre o norte, de estrada em estrada, que por lá chegaria até o fim do mundo se assim quisesse. Mas o fim do mundo era o próprio caminho. Logo no início do trajeto, da Bahia para o Piauí, ele viu o que lhe esperava. Às vezes, até conseguia acompanhar a linha férrea, mas as estradas nem sempre desembocavam em outras. Quando só havia mato ou areia, tinha que carregar a bicicleta nas costas e andar. Alimentando-se mal, dormindo pouco, Rubens precisava de boa acolhida quando encontrava alguma cidade no horizonte. Sem ter como pagar pela estadia, apelava para o comércio local ou então torcia pela boa receptividade dos políticos de plantão. Acabou descobrindo que o ideal mesmo seria alardear sua presença. Passou a fazer da visita à imprensa sua primeira tarefa quando chegava em algum lugar. Quando nem assim adiantava, o jeito era improvisar. Para viver na estrada não bastava ser atleta, era preciso ser artista. Rubens usou de sua habilidade para fazer espetáculos de piruetas e malabarismos em cima da bicicleta, angariando dinheiro para seguir em frente.

O jovem baiano ia conhecendo a realidade do Brasil do fim do anos 20, um país com seus 35 milhões de habitantes vivendo numa sociedade essencialmente rural. No Maranhão, foi parar na delegacia por ter matado uma galinha. No Pará, acabou preso por desacato a uma sensibilíssima autoridade. De Belém a Manaus, era forçoso navegar sobre as águas do Rio Amazonas. Rubens pedalava sua bicicleta no convés do navio e se impressionava com a imensidão quase oceânica do maior rio do mundo.

– Navegar pelo grande e solitário Amazonas é como cruzar o mar.

Perdido na floresta amazônica, na região do Alto Rio Negro, ele subiu numa árvore para tentar enxergar melhor onde estava e começou a gritar por socorro. Mas só quem apareceu foi uma onça-pintada em busca de almoço. Rubens se desesperou, mas a onça foi paciente. Esperou-o por um dia inteiro até desistir e ir embora. Alucinado, ele desceu da árvore, deixou a bicicleta para trás e foi correndo em direção a uma clareira onde, por sorte, um grupo já estava à sua procura.

 

A estrada de Sandino

No início de 1928, Rubens Pinheiro cruzou a divisa do Brasil com a Venezuela. Desarmado pelo delegado da fronteira, foi obrigado a deixar no lado brasileiro um revólver que levava escondido. Falando um portunhol bem particular, contou seus feitos aos jornais locais sem a menor modéstia. Já com experiência no trato com autoridades, mandou um telegrama para o caudilho que presidia o país, o General Juan Vicente Gómez. O mais poderoso político venezuelano do século XX lhe respondeu com uma contribuição de 5 mil bolívares. As recomendações que recebeu da maçonaria do Amazonas também lhe renderam bons contatos e ainda mais dinheiro.

Na vizinha Colômbia, a penúria do povo era tão visível quanto a inabalável fé do país mais católico que apareceu no caminho de Rubens. Era época de Carnaval e, mesmo acostumado aos blocos de rua de Salvador, a festa lhe deixou impressionado. Mas sem as facilidades que encontrou na Venezuela, o dinheiro acabou. Era preciso lançar mão de mais um dos seus truques. Com a ajuda de dois garotos, foi ao restaurante do hotel em que se hospedava e colocou um cartão de apresentação em cada mesa, antes que os hóspedes chegassem. Deu dinheiro aos meninos e, na hora certa, encenaram o combinado. Os garotos lhe perguntaram, em voz alta, sobre a viagem. Depois de ouvir a explicação de Rubens, lhe devolveram o dinheiro que tinham recebido previamente. Foi o estopim para que todos no salão colocassem a mão no bolso e fizessem o mesmo. Ideia muito melhor da que tivera dias antes, quando convidou um boxeador para uma luta de exibição. Conseguiu ganhar uns trocados, mas perdeu alguns dentes.

Na porta de entrada da América Central, o Panamá, a ocupação norte-americana na Zona do Canal era uma barreira obrigatória. Rubens atravessou-a, fez amizade com os oficiais e recebeu um convite para dar um passeio de avião, o primeiro de sua vida. Sabendo disso, o piloto caprichou nas manobras, apavorando o passageiro estreante. Quando aterrissou, jogou água por cima da cabeça para disfarçar o verdadeiro motivo de estar molhado.

De novo na estrada, pedalando na Opel e deixando para trás, em cada parada, os amores das moças que se encantavam com seu ar de forasteiro, chegou à turbulenta Nicarágua, que estava sob intervenção militar dos Estados Unidos e vivia em estado de sítio. Acabou sendo detido por algumas horas pelas tropas norte-americanas, confundido com um guerrilheiro. O que os marines nem suspeitavam, e o próprio Rubens só iria descobrir depois, é que o homem de chapéu, com duas armas na cintura e um jeito de delegado da região, que tinha sido seu companheiro em um trecho da viagem pelo interior da Nicarágua, era o revolucionário Augusto César Sandino, herói da luta contra os invasores.

 
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Jornal A Manhã deu uma página para a aventura de Rubens Pinheiro.

Procurando a América

Uma grande recepção o esperava no México, em janeiro de 1929. Centenas de ciclistas que festejavam sua chegada o acompanharam até a embaixada brasileira, onde recebeu hospedagem. Posou para várias fotos de jornais e foi recebido no palácio do governo pelo presidente Emilio Portes Gil, que lhe deu generosa contribuição e documentos que o ajudariam na passagem para o outro lado da fronteira. Era a antessala para Rubens Pinheiro atravessar o leste dos Estados Unidos como se fosse um Jack Kerouac de bicicleta, antes mesmo que o futuro escritor beatnik, ainda uma criança, fosse digno de nota. Entrou no Texas encabulado com os bondes elétricos, maravilhado com as estradas bem asfaltadas e desconhecendo totalmente a língua inglesa. Nunca tinha visto tantos carros trafegando nas estradas, por isso decidiu pedalar à noite, aproveitando a pista livre, momento preferido também pelos motoristas das enormes carretas. Rubens se agarrou na traseira de uma delas e pegou carona. Amanheceu com uma enchente no Alabama, seguiu por Tenessee, Kentucky, West Virginia, foi até a capital Washington, depois Maryland, Pensilvânia e New Jersey, até molhar as rodas de sua bicicleta no Rio Hudson.

 
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Assim Rubens chegou a Nova Iorque. Foto: arquivo da família.

Enfim, Nova Iorque

As mulheres usam casquetes no cabelo, os vestidos das Melindrosas e o direito a voto marcam a emancipação feminina, o Jazz desponta no cenário musical, os carros de Henry Ford aceleram no asfalto, o rádio e a luz elétrica modificam os lares, os cinemas abrigam multidões e a lei seca vigora. São os chamados Anos Loucos, uma época que está se aproximando do fim, ainda esperando Rubens e sua bicicleta chegarem a tempo. Ele envia um telegrama ao Cônsul-Geral do Brasil, marcando data e hora para completar a incrível viagem. Como um maratonista que já sabe da vitória antes de cruzar a linha de chegada, pedalou a noite inteira para cumprir a promessa e, depois de dois anos, 26 pneus usados, mais de mil cidades visitadas e uma infinidade de histórias para contar, o raidman Rubens Pinheiro chegou às duas horas da tarde do dia 1.º de abril de 1929 na cidade de Nova Iorque.

– Estou quebrado! Mas é bom ver Nova Iorque, ela é bonita e tão grande.

Os brasileiros do Brooklin organizaram um banquete para homenageá-lo. Nos primeiros momentos, foi alvo de curiosidade por onde passou. Para conseguir sobreviver na metrópole, o baiano precisou trabalhar lavando pratos em um restaurante, antes de conseguir um emprego na General Motors. O prazo de permanência de Rubens nos Estados Unidos se esgotou poucos meses antes de estourar a crise de 29, restando-lhe apenas embarcar de volta ao Brasil.

 
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Rubens Pinheiro vestido para o Globo da Morte. Foto: reprodução do livro “Raid em bicicleta — Herói esquecido”

O Globo da Morte foi o seu esporte

Quando o navio Southern Cross atracou no porto do Rio de Janeiro, em julho, bandeiras tremulavam por todo canto. Rubens desembarcou com a bicicleta Opel, pronto para ser homenageado, mas ninguém o notou. A festa era para Olga Bergamini de Sá, Miss Brasil de 1929, que regressava dos Estados Unidos depois de ter participado do concurso de Miss Universo. Desde antes, essa concorrência era desleal. Enquanto Rubens ainda se esforçava para chegar a Nova Iorque, os jornais davam enorme destaque ao concurso de Miss Brasil. Quando venceu o concurso e ficou apta a representar o Brasil em Galveston, no Texas, Olga Bergamini virou uma celebridade nacional, sendo recebida inclusive pelo presidente Washington Luís. Quando foi aos Estados Unidos, teve tratamento de estrela, sendo recepcionada até pelo presidente Herbert Hoover.

Mas Rubens não desistiria de buscar reconhecimento oficial antes de ficar frente a frente com o presidente Washington Luís, no Palácio do Catete. Foram duas semanas de espera até enfim conseguir uma audiência pública com o último mandatário da República Velha. O encontro de um desbravador como Rubens com o político autor da célebre frase “governar é abrir estradas” deveria ser um bom motivo para se confraternizarem. Mas a conversa durou pouco. Rubens contou rapidamente de sua aventura, pediu emprego e uma passagem de volta para a Bahia. Washington Luís se limitou a dispensá-lo, com a arrogância de quem ainda não vislumbrava a proximidade da Revolução de 30.

– O Brasil mandou você fazer alguma coisa?

Rubens ficou desolado. No exterior, quase sempre tivera apoio oficial. No Brasil, apenas o desprezo. Sensação que o acompanhava desde Nova Iorque, quando o cônsul Sebastião Sampaio telegrafou ao ministro das relações exteriores, o baiano Octávio Mangabeira, pedindo uma recompensa que Rubens jamais recebeu. Para conseguir voltar à Bahia, foi socorrido pelo diretor da Mesbla, Louis La Saigne. Em troca, deixou sua Opel exposta na vitrine da loja. Ainda no Rio, o jornal A Manhã lhe dedicou página inteira, com a condição de não citar o que ocorrera no Palácio do Catete.

De volta a Salvador, Rubens organizou uma missa na Igreja do Bonfim em agradecimento pelo feito alcançado. Na saída, levou os convidados ao delírio, pedalando de costas na escadaria e pela ladeira do Bonfim. Mas a sobrevivência de novo lhe batia à porta. Retornou à sua vida de anônimo, trabalhando no que aparecia pela frente. Foi entregador de encomendas, fiscal de colégio, chaveiro, chofer de praça e guarda de trânsito, quando ficou responsável por instalar os primeiros semáforos da cidade. Aprendiz de mágico, passou a apresentar seus próprios espetáculos e conseguiu construir sozinho um aparelho para o número da Mulher Serrada. Em 1934, um afamado circo chegou a Salvador oferecendo um conto de réis a quem executasse o número do Globo da Morte. Rubens jamais havia tentado algo parecido, mas aventurar-se era a sua profissão. Ele ganhou o prêmio e seguiu viagem como ciclista do Globo da Morte. Em uma dessas apresentações, três anos depois, impressionou o público com uma sequência de loopings que só terminou quando ele caiu, fraturando a clavícula e queimando uma perna no cano da moto.

 
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Rubens Pinheiro, em cadeira de rodas, recebendo homenagem pelos 50 anos do Raid, em frente à Igreja do Bonfim, em Salvador. Foto: arquivo da família

Em busca de Rubens Pinheiro

No fim da vida, vendendo seu livro e contando suas histórias na praça como se fosse um Forrest Gump esquecido, sua tarefa era provar que aquela incrível viagem aconteceu de verdade, tentando impedir que a lembrança da façanha fosse devorada pelo tempo. Agora, a minha é provar que Rubens Pinheiro realmente existiu. O baú da internet é largo mas raso. As únicas menções que existem sobre ele na grande rede são decorrentes de um texto que eu mesmo escrevi, anos atrás. É muito pouco. Antes, não havia nada. Historiadores, arquivos de jornais, federações de ciclismo e o Comitê Olímpico Brasileiro desconhecem o fato. O Consulado-Geral do Brasil em Nova Ioque também não pôde ajudar. Mas a força das lembranças suplanta a história oficial tanto em acervo quanto em beleza.

– Leve esse livro, você vai gostar.

Sem nenhuma explicação prévia, quando eu já estava na porta para ir embora do apartamento em que ele morava, no bairro da Graça, meu avô Renato Fróes (1922–2014) me deu um desgastado e simplório livreto azul, que ele mesmo comprou na mão do próprio Rubens Pinheiro, no fim dos anos 70.

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Livrinho “Raid em bicicleta — Herói esquecido”. Foto: Sora Maia

Enquanto lia o livrinho, duvidava de sua veracidade. É como se, daqui a muitos anos, alguém não possa acreditar que Amyr Klink realmente cruzou o oceano atlântico remando sozinho, tendo como ponto de chegada a mesma Salvador em que Rubens se lançou ao mundo. Mas Amyr vive num tempo em que são fartas as maneiras de documentar um acontecimento e deixá-lo comprovado. Vinte e três anos depois que Rubens Pinheiro conseguiu chegar a Nova Iorque, Alberto Granado e o jovem Ernesto Guevara, o Che, que na época ainda atendia pelo apelido Fuser, partiram para desbravar a América do Sul. Foram da Argentina à Venezuela montados em La Poderosa, embora tenham completado a viagem pedindo carona depois que a moto quebrou. Em 2004, a aventura chegou às telas pelas mãos do diretor brasileiro Walter Salles e conquistou fama mundial, recebendo duas indicações ao Oscar e ganhando uma estatueta.

Mas o que aconteceu com Rubens Pinheiro? A história de sua viagem foi narrada de forma imprecisa, por vezes contraditória, nas parcas e sofríveis 68 páginas do livro Raid em bicicleta — Herói esquecido, com redação final de seu cunhado, Archimimo Ornellas, autor de A vida sentimental de Castro Alves. Já seria fantástico se o Raid do baiano fosse uma obra de ficção. Aos poucos, fui me sentindo guardião dessa história enquanto via outros feitos, de maior ou menor escala, serem lembrados e celebrados, mas o de Rubens continuar ignorado. Recentemente, a história dele voltou a aproximar-se de mim. Descobri que seu filho vendia selos para colecionadores, todo sábado, bem perto de onde eu moro. Fui à sua procura e, de longe, avistei um idoso com moedas e selos à venda em um tabuleiro. Achei que pudesse tratar-se de Rubem Pinheiro, de nome quase igual ao pai. Mas não, Rubem falecera há 5 anos, me informou o senhor, que conhecia toda a história do livrinho azul e me pôs em contato com a família.

Rubens Pinheiro, o neto. Foto: Sora Maia

Rubens Pinheiro, o neto. Foto: Sora Maia

A partir de então conheci o neto, também chamado Rubens Pinheiro, que há pouco tempo, quando completou 50 anos, resolveu aderir ao ciclismo e participar de provas de resistência. Seus amigos se admiram que ele tenha fôlego para encarar competições que duram até 24 horas. É a deixa pra ele explicar sorrindo.

– Isso não é nada! Meu avô foi até Nova Iorque…

Apesar do pouco contato que teve com o avô, recorda-se de ouvi-lo contando mais de outros momentos da vida do que propriamente do histórico Raid.

– O que mais me lembro é o fato de ele querer sempre se superar, sempre sendo pioneiro no que fazia.
Curioso é que uma das netas, Francine Pinheiro, hoje mora justamente em Nova Iorque.

Dona Olga Pinheiro, filha mais velha de Rubens, na porta de casa. Foto: Sora Maia

Dona Olga Pinheiro, filha mais velha de Rubens, na porta de casa. Foto: Sora Maia

Mas a verdadeira guardiã desta saga é Olga Pinheiro, 84 anos, filha mais velha de Rubens. É ela quem guarda o maior tesouro da viagem, o livro com capa de couro de cobra, com as assinaturas de presidentes, autoridades e quem mais pelo caminho tenha sido testemunha do intrépido pedalante da Opel.

– Você sabe por que eu tenho esse nome?

A resposta está na própria história do pai, que não esqueceu da Miss que tanto lhe ofuscou na volta ao Brasil. Resolveu batizar a primeira filha justamente em sua homenagem.

A façanha de Rubens não lhe abriu as portas do mundo. Ao contrário, foi dragado de volta à Bahia. Ao longo da vida, mostrou uma engenhosidade marcante. Foi dono de oficina mecânica e abriu o primeiro hospital de bonecas que se tem notícia por aqui. Quando sua aventura completou meio século, algumas homenagens lhe foram prestadas. Um raid de bicicleta saiu do Elevador Lacerda e foi até o Bonfim, onde uma nova missa foi realizada. A comemoração teve direito a um bolo gigantesco. Antes mesmo do jubileu, ele havia sido entrevistado nos programas de Hebe Camargo e Flavio Cavalcanti, mas nem assim sua história passou a ser conhecida do grande público. Hoje, uma rua no bairro de Amaralina leva o seu nome. Mas ninguém que por lá passar saberá associar um nome comum a uma história surpreendente.

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Detalhes do livro de viagem de Rubens Pinheiro. Fotos: Sora Maia

Rubens Pinheiro faleceu em 1981, aos 72 anos. Nos últimos tempos, já não andava por conta do agravamento das lesões que sofreu quando era motociclista do Globo da Morte. A casa da família, no Matatu de Brotas, a última em que viveu, guarda as únicas relíquias dessa incrível história que ainda não percorreu as mesmas distâncias pedaladas por ele. O esquecimento permanece vivo.

Dedicado a Renato Fróes
Por Lucas Froés

 

Quem considera uma façanha heróica a viagem motorizada de Che Guevara pela América do Sul certamente não conhece a história de Rubens Pinheiro. Pois há 80 anos, o jovem baiano, então com 17 anos de idade, saiu de Salvador rumo a Nova York, nos Estados Unidos, pedalando uma bicicleta. Foram 18 mil quilômetros de um raid (jornada) que só terminaria dois anos depois. Um feito até então inédito.” Lucas Froés

Flavio Velame correndo de sandálias na Wings for LifeEssa história é daquela que eu ouvia na família desde pequeno, mas nunca dava muita bola, até porque criança não tem noção das coisas. Claro que depois me serviu de inspiração o espírito aventureiro, mas acho que sou bem mais cauteloso.” Flávio Velame, bisnesto de Rubens Pinheiros, maratonista que corre de sandálias e conquista pódios pelo Brasil afora. Foto: Wings for Life – 37km em 2h51 – 42º geral entre 4292 atletas.

 

Fonte

Flávio Velame, Bisneto de Rubens Pinheiro

Links de referência:
Puntero Izquierdo – De Bicicleta pela América
A Tarde – Há 80 anos, baiano percorria as Américas de bicicleta

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