A normalização do uso de hormônios e de outras substâncias que aumentam a performance esportiva criaram uma combinação perigosa entre medicina, estética, influência digital e fraude esportiva. Nas redes sociais, alguns influenciadores e, em certos casos, profissionais de saúde vendem a ideia de “otimização” e “alta performance” como se fossem soluções seguras ou banais, enquanto aumentam os riscos cardiovasculares, hormonais e psicológicos associados ao uso indiscriminado dessas substâncias.

Entre promessas de ganho de performance, emagrecimento acelerado e transformação estética, o doping passou a ser apresentado com nova roupagem, especialmente no esporte amador. Ele aparece como tratamento médico, reposição hormonal ou como algo compatível com uma suposta “performance saudável”, quando na verdade continua sendo uma questão ética, médica e cultural de grande gravidade.
O doping sempre existiu no esporte, mas nos últimos anos a sua linguagem mudou. Em vez da imagem clássica associada a laboratórios clandestinos e atletas profissionais flagrados em grandes competições, surgiu uma estética mais popular e socialmente aceita. Hoje, substâncias proibidas em competições esportivas são frequentemente apresentadas como ferramentas de “longevidade”, “equilíbrio hormonal”, “otimização metabólica”, “protocolo de performance” ou “melhora da composição corporal”.
Na prática, boa parte dessas intervenções continua sendo exatamente aquilo que o esporte reconhece como doping: o uso artificial de substâncias ou métodos para aumentar o desempenho físico, acelerar a recuperação, alterar a composição corporal ou ampliar capacidades fisiológicas de maneira incompatível com o jogo limpo.
Segundo a Agência Mundial Antidopagem (WADA), a Lista Proibida reúne substâncias e métodos que atendem aos critérios definidos pelo Código Mundial Antidopagem. No Brasil, essas diretrizes são incorporadas e regulamentadas pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), em conformidade com a Convenção Internacional contra o Doping no Esporte da UNESCO. (Clique aqui para acessar o Código Brasileiro Antidopagem). Nesse contexto, cabe a todos os atletas — tanto da elite quanto do esporte amador — conhecerem as substâncias, medicamentos e métodos que utilizam, mesmo quando prescritos por profissionais de saúde. Isso significa que o fato de uma substância ser indicada por um médico não a torna automaticamente permitida no esporte. A prescrição pode até existir no contexto clínico, mas isso não elimina sua avaliação dentro das regras antidopagem.
A ideia de que “se o médico passou, não é doping” costuma nascer justamente da tentativa de medicalizar práticas de aumento artificial de performance. Em muitos casos, atletas e praticantes recebem prescrições de testosterona, anabolizantes derivados, hormônios peptídicos ou moduladores metabólicos sem apresentarem doenças que justifiquem clinicamente aquele tratamento. Esse discurso costuma vir embalado por promessas sedutoras de mais energia, recuperação mais rápida, emagrecimento, melhora estética, aumento de libido, redução do cansaço e/ou crescimento muscular. No entanto, no esporte, a responsabilidade pelo uso da substância continua sendo do atleta. O princípio da responsabilidade objetiva significa que ele responde pela substância encontrada em seu organismo, independentemente de quem prescreveu, indicou ou recomendou seu uso.
Isso não apaga, porém, a parcela de responsabilidade de treinadores, médicos, nutricionistas e demais integrantes da equipe. Quando há incentivo, omissão, conivência ou vista grossa diante de práticas dopantes, existe também uma forma de cumplicidade. Nem sempre isso significa a mesma responsabilidade formal do atleta, mas significa participação em um ambiente que normaliza a trapaça.
Além disso, entidades médicas passaram a endurecer seus posicionamentos sobre esse tipo de prescrição. O Conselho Federal de Medicina publicou normas vedando o uso de terapias hormonais e anabolizantes para fins exclusivamente estéticos, ganho de massa muscular ou melhora de desempenho esportivo sem indicação clínica legítima. A justificativa é a falta de evidências científicas suficientes para sustentar benefícios à saúde, enquanto os riscos são amplamente documentados.
O impacto fisiológico e os danos sistêmicos do doping
O uso de doping no esporte de alto rendimento não é novidade para ninguém, e fingir que esse problema não existe talvez seja uma das formas mais frágeis de enfrentá-lo. Existe uma grande pressão sobre atletas profissionais por cobrança de resultados, permanência em equipes, patrocínios, contratos, rankings e expectativas públicas. Embora isso não justifique o uso de substâncias proibidas, é possível compreender esse ambiente de pressão permanente em que muitos desses atletas estão inseridos. Mas, o que é mais difícil de aceitar é a crescente adesão dessas práticas no esporte amador, muitas vezes em provas sem premiação, sem retorno financeiro e sustentadas apenas por um momentâneo de reconhecimento nas redes sociais ou por uma validação efêmera de performance. Nenhum resultado temporário compensa os danos fisiológicos, psicológicos e éticos que esse tipo de prática pode produzir a médio e longo prazo.
Existe um imaginário perigoso, amplamente disseminado nas redes sociais, de que protocolos hormonais modernos seriam seguros quando acompanhados por supervisão médica. A literatura científica, porém, descreve um cenário muito mais complexo e criterioso. O uso de esteroides anabolizantes e hormônios em pessoas que não apresentam indicação clínica legítima para esse tipo de tratamento está associado a uma série de consequências graves para o organismo, incluindo hipertensão arterial, arritmias cardíacas, hipertrofia do músculo cardíaco, aumento do risco de infarto e AVC, além de lesões hepáticas severas. Os impactos também atingem os sistemas endócrino e reprodutivo, podendo provocar infertilidade, atrofia testicular e alterações menstruais. No campo psiquiátrico e comportamental, os efeitos incluem agressividade, impulsividade, dependência psicológica, depressão e alterações cognitivas.
Esse problema crescente nas academias e entre atletas amadores se agrava com a lógica do chamado “stack”, prática em que múltiplas substâncias são combinadas simultaneamente, muitas vezes sem controle adequado sobre a segurança dessas associações. Em contextos paralelos de produção e comercialização, não é raro que substâncias de procedência duvidosa, produtos clandestinos e compostos sem respaldo técnico sejam incorporados a esses protocolos vendidos informalmente em academias, consultórios ou grupos fechados online. Em alguns casos, o resultado do uso destas substâncias é o colapso do organismo.
A normalização do doping nas redes sociais
Nas redes sociais, o corpo frequentemente é transformado em uma espécie de vitrine permanente, tornando-se objeto de comparação, projeção e construção de identidade. Nesse ambiente, a performance física passa a funcionar também como capital social. Alguns influenciadores do universo fitness exibem resultados extremos sem transparência sobre os meios utilizados, enquanto outros insinuam protocolos hormonais e substâncias proibidas como parte de uma rotina supostamente “otimizada”, criando a falsa percepção de que esse tipo de prática seria normal, inevitável ou até necessário para alcançar determinados padrões corporais ou esportivos.
O efeito disso é grave. Adolescentes e atletas amadores passam a enxergar substâncias potencialmente perigosas como ferramentas comuns de evolução física, e o doping deixa de parecer fraude para ser percebido como estratégia. Essa normalização é especialmente danosa porque desloca a referência ética do esporte, substituindo disciplina, treino, recuperação, constância e construção fisiológica gradual pela lógica do atalho, do artificial.
Em alguns casos, o problema se agrava com a aceitação institucional. Onde há situações em que atletas expõem publicamente o uso de doping, inclusive antes da prova, e depois recebem engajamento, aplausos ou validação – inclusive de organizadores -, quando o correto seria a desclassificação desses atletas. O mesmo vale para a fiscalização profissional, pois, o problema mais evidente, muitas vezes, não é a atuação explícita de conselhos, mas a inação, a demora ou a falta de firmeza diante de profissionais que usam as redes sociais para vender serviços, procedimentos e substâncias proibidas no esporte.
Integridade esportiva, trapaça e falta de ética nas competições
Existe uma tendência recorrente de tratar o debate sobre doping como uma questão meramente burocrática, regulatória ou moralista. Essa leitura simplifica uma questão muito maior. O esporte só faz sentido quando há competição justa, em condições equivalentes para todos os participantes. Existe um pacto coletivo de regras compartilhadas, e o valor simbólico da competição depende justamente da confiança de que os resultados expressam preparação, talento, estratégia, disciplina e capacidade humana reais.
O doping cria uma falsa equivalência competitiva. O atleta deixa de competir apenas com sua adaptação fisiológica construída pelo treinamento e passa a depender de intervenções artificiais capazes de alterar recuperação, força, resistência, tolerância ao esforço e resposta biológica ao treino. Por isso, o doping deve ser tratado como trapaça e como quebra da integridade esportiva.
A ideia de que “em prova pequena isso não importa” ignora o impacto coletivo dessa prática. Quando o uso de substâncias proibidas é tolerado, relativizado ou tratado como algo normal, cria-se um ambiente de pressão nos outros atletas, que passam a sentir que competir limpo significa competir em desvantagem. Aos poucos, referências são distorcidas, expectativas tornam-se irreais e o próprio sentido do mérito esportivo começa a se deteriorar.
Já vi atletas amadores extremamente dedicados perderem motivação e abandonarem o esporte ao longo do tempo diante de uma competição injusta. Pessoas que treinavam de forma consistente, respeitavam os processos, cuidavam da alimentação, da recuperação e de todos os aspectos relacionados ao treinamento, mas que acabavam frustradas ao perceber que indivíduos recém-chegados alcançavam resultados rápidos por meio do uso de substâncias proibidas. E o problema se agrava quando os infratores passam a normalizar o uso dessas práticas — ou simplesmente fingem competir de forma limpa – sem que haja um posicionamento claro de fiscalização e punição por parte de organizadores e outras estruturas ligadas ao esporte. Isso cria um ambiente de desconfiança e distorção de referências, no qual o esforço legítimo começa a parecer insuficiente diante de atalhos artificiais. Com o tempo, o dano deixa de atingir apenas a integridade da competição e passa a afetar também a permanência das pessoas no esporte, especialmente daqueles que acreditam no treinamento sério, gradual e honesto como caminho de evolução.
O compromisso da Tripedal com saúde, transparência e jogo limpo
Defender o jogo limpo exige mais do que discurso. Exige posicionamento, responsabilidade e coerência prática. Na Tripedal, entendemos que saúde, ética e integridade esportiva são dimensões inseparáveis do esporte que acreditamos e buscamos construir diariamente. Por isso, não compactuamos com o uso de substâncias proibidas, protocolos hormonais voltados à performance sem necessidade clínica legítima ou qualquer prática que viole princípios antidopagem.
Mantemos o direito de solicitar esclarecimentos, exames e comprovações terapêuticas sempre que considerarmos necessário para preservar a integridade esportiva da equipe, das competições e da comunidade ao nosso redor. Nosso compromisso é com um esporte baseado em treinamento real, evolução consistente, integridade física, respeito aos adversários e honestidade sobre os próprios resultados.
Em um cenário cada vez mais marcado pela cultura do atalho, preservar esses princípios talvez seja uma das tarefas mais difíceis — e mais importantes — do esporte contemporâneo. Porque, no fim, o resultado esportivo só possui valor quando pode ser sustentado pela verdade. E o jogo limpo não pode ser apenas ingenuidade ou romantização do esporte, deve ser uma escolha ética de proteger a saúde dos atletas, preservar o sentido da competição e manter viva a confiança que representam o espírito esportivo.
CARDOSO, Darley. Doping no esporte: a cultura do atalho, o risco à saúde e a defesa do jogo limpo. Artigos, Tripedal.net, 26 de agosto de 2025. Disponível em: https://tripedal.net/doping-no-esporte-a-cultura-do-atalho-o-risco-a-saude-e-a-defesa-do-jogo-limpo/. Acesso em: 29 de maio de 2026.

















