Redes sociais, desinformação, sobrecarga mental e a importância da atividade física

Em períodos de crises sociais e acontecimentos que mobilizam a população, acompanhar as notícias é uma forma legítima de compreender o que está acontecendo. Porém a necessidade compulsiva de consumo de conteúdo digital e a rolagem infinita da tela1, se tornam um problema de saúde mental quando passam a ocupar continuamente a atenção, interrompendo o descanso e mantndoa mente em estado de alerta, acarretando perda de controle e prejuízos à saúde e à vida cotidiana.

Notificações, vídeos, comentários, debates e atualizações sucessivas fazem parte da chamada economia da atenção2, formando um fluxo que requer nossa conexão ininterruptamente. Neste cenário, entre conteúdos confiáveis, opiniões, informações incompletas e desinformação, o conteúdo apresentado pode estimular sensações e sentimentos vicerais, e por isso, precisamos cada vez mais avaliar o que recebemos, interpretar os acontecimentos e lidar com emoções que nem sempre encontram tempo para serem elaboradas.

Em Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han analisa como a nossa sociedade, marcada pela exigência de desempenho, produtividade e disponibilidade constantes. Tende a nos levar a uma cobrança internalizada fazendo nos sentir que precisamos acompanhar tudo, responder rapidamente, formar uma opinião e permanecer atualizados o tempo todo. Nas redes sociais, essa dinâmica encontra um ambiente de estímulos contínuos, que pode dificultar a concentração, a reflexão e o descanso mental e até mesmo físico.

A pesquisa científica identifica uma relação direta entre o uso problemático das redes sociais, sintomas de ansiedade e depressão, prejuízos ao bem-estar e dificuldades de sono. Estudos sobre a circulação de desinformação durante a pandemia identificaram relatos de medo, incerteza, sofrimento psicológico e fadiga. Isso não significa que toda exposição às redes sociais provoque adoecimento. Por isto, o contexto, o conteúdo, a maneira de utilizar as plataformas e as condições de vida de cada pessoa precisam ser considerados.

O problema da sobrecarga mental pode se manifestar por meio de inquietação, irritabilidade, dificuldade de concentração, esquecimentos, cansaço persistente, sensação de confusão mental, alterações do sono e dificuldade para organizar pensamentos e tomar decisões. Esses sintomas merecem atenção, especialmente quando começam a interferir no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e nas atividades cotidianas. É importante considerar que estes problemas também podem estar relacionados a outras condições de saúde e não devem ser atribuídos automaticamente ao uso das redes sociais sem avaliar o contexto de vida de cada pessoa.

De todo modo, manter uma rotina de atividade física é parte importante do cuidado pessoal. A prática estruturada de exercício físico contribui para a saúde do cérebro, favorece o bem-estar psicológico e participa da regulação do sono. Estudos de síntese de evidências identificam benefícios do exercício para a cognição, a memória e as funções que envolvem habilidades como sustentar a atenção, planejar tarefas e regular respostas diante de distrações. A sua prática regular também cria oportunidades para direcionar a atenção à respiração, aos movimentos, ao ambiente e às sensações do corpo. Caminhar, correr, pedalar, nadar ou realizar exercícios de força podem fazer parte de uma rotina saudável que inclui contato com outras pessoas, convivência ao ar livre e momentos dedicados à própria experiência corporal.

A manutenção da saúde, no que se fere à atividade física, requer uma rotina de treinamento que exige planejamento e adaptações ao momentos de vida. Períodos de estresse, noites mal dormidas, fadiga acumulada e dificuldades pessoais podem alterar a capacidade de recuperação. O que requer ajuste da frequência, duração e intensidade dos treinos, distribuição dos estímulos ao longo da semana e reconhecer quando é necessário reduzir a carga ou priorizar o descanso.

A rotina de treinamento também oferece uma estrutura para organizar o cotidiano. Ter horários previstos, objetivos realistas e sessões compatíveis com a própria condição facilita a continuidade da prática de exercícios físicos e reduz a dependência da motivação do momento. E essa rotina deve ser acompanhada de flexibilidade para acomodar imprevistos, preservar a recuperação e evitar que a busca por desempenho se transforme em outra fonte de pressão.

Hiperconexão e cansaço mental: quando é hora de desacelerar (Foto de Uday Mittal na Unsplash)

Confira algumas dicas para cuidar da saúde mental e manter a rotina de treinamento

• Organize o acesso às notícias. Defina horários para se informar e encerre o aplicativo quando esse período terminar. Evite acompanhar atualizações durante todo o dia.

• Reduza as interrupções digitais. Desative notificações desnecessárias, silencie grupos muito ativos e limite o uso das plataformas antes de dormir.

• Verifique as informações. Confira a origem, a autoria, a data e o contexto das mensagens. Busque confirmação em fontes jornalísticas, agências de checagem e demais instituições confiáveis antes de compartilhar.

• Reserve momentos sem telas. Caminhe, pedale, treine, converse ou permaneça ao ar livre sem consultar continuamente o celular.

• Mantenha o treinamento planejado. Siga uma programação compatível com sua condição física, seu tempo disponível e sua capacidade de recuperação. Evite aumentar a carga por impulso ou tentar compensar sessões perdidas com excesso de esforço.

• Observe os sinais do corpo. Acompanhe a qualidade do sono, a disposição, a concentração e a fadiga. Converse com seu treinador para adaptar as sessões quando houver sinais de desgaste acumulado.

• Proteja o descanso. Mantenha horários regulares para dormir, hidrate-se, alimente-se adequadamente e reserve períodos de recuperação durante a semana.

• Procure apoio quando necessário. Se a ansiedade, o esgotamento, a dificuldade de concentração ou outros sintomas persistirem ou prejudicarem sua rotina, procure orientação de um profissional de saúde.

Cuidar da saúde física e mental envolve fazer escolhas conscientes. Treinar e nutrir o corpo com alimentos saudáveis e a mente com informações confiáveis, reconhecer os limites da exposição às telas, preservar o sono, cultivar relações significativas e equilibrar atividade física, recuperação e acompanhamento adequado. Assim como a alimentação, a informação que consumimos diariamente influencia nosso bem-estar. Fortalecer o corpo e a mente exige consistência, planejamento e respeito aos próprios limites. Mantenha o corpo em movimento, selecione o que alimenta sua mente e cuide da sua saúde.

Leia mais

» 12 Dicas Essenciais para Correr com Segurança
» 12 Dicas essenciais para iniciar no Triathlon
» Recuperar faz parte do treinamento
» Quer ficar grande, mais forte ou performar melhor? O que a ciência diz e como aplicar no seu treino
» Doping no esporte: a cultura do atalho, o risco à saúde e a defesa do jogo limpo
» Por que tantas pessoas abandonam os treinos e as metas de Ano Novo em janeiro e como passar dessa fase?

Notas

1. Rolagem Infinita (infinite rolling) – Ato de interagir em uma sequência contínua de publicações, vídeos ou produtos sem encontrar um ponto final fixo mesmo quando a pessoa já não encontra satisfação ou utilidade no conteúdo. Este tipo de recurso visa reter a atenção do interator ao eliminar as pausas naturais da navegação, facilitando que o usuário perca a noção do tempo. Além disso, estimula o cérebro através da liberação de dopamina, divido a expectativa de ver algo novo a cada rolagem, o que pode gerar hábitos de uso excessivo ou ansiedade.
2. Economia da Atenção – conceito que discute como as plataformas disputam e monetizam com o tempo de atenção dos usuários.

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Referência nacional para a promoção da atividade física e a incorporação do movimento à rotina em diferentes fases da vida. Acesso ao guia oficial

AHMED, Oli et al. Social media use, mental health and sleep: A systematic review with meta-analyses. Journal of Affective Disorders, v. 367, p. 701–712, 2024. DOI: 10.1016/j.jad.2024.08.193.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
ROCHA, Yasmin M. et al. The impact of fake news on social media and its influence on health during the COVID-19 pandemic: a systematic review. Journal of Public Health, v. 31, p. 1007–1016, 2023. DOI: 10.1007/s10389-021-01658-z.
SINGH, Ben et al. Effectiveness of exercise for improving cognition, memory and executive function: a systematic umbrella review and meta-meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 59, p. 866–876, 2025. DOI: 10.1136/bjsports-2024-108589.

Como citar este post (ABNT):
CARDOSO, Darley. Redes sociais, desinformação, sobrecarga mental e a importância da atividade física. Artigos, Tripedal.net, 26 de outubro de 2026. Disponível em: https://tripedal.net/redes-sociais-desinformacao-sobrecarga-mental-e-a-importancia-da-atividade-fisica/. Acesso em: 28 de outubro de 2026.

Darley Cardoso é professor e treinador certificado pela Confederação Brasileira de Triathlon (CBTri) e pela TrainingPeaks, mestre e doutorando na linha de pesquisa em Arte e Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB). Especialista em metodologias ativas, pesquisa sobre corporeidade e motricidade humana, exergames, interfaces computacionais, performance e treinamento de endurance. Alia produção acadêmica e experiência prática no treinamento de atletas, participando e conduzindo jornadas rumo a desafios multiesportivos da World Triathlon, Epic Series Global MTB, Ironman, XTerra, Brasil Ride, entre outros. Saiba mais sobre o autor em: darley.pro.br | @darleycardoso

Prepare-se com Quem Entende de Endurance!

Quer transformar seu desempenho e planejar sua melhor temporada?
Escolha o seu plano hoje mesmo e tenha resultados melhores e mais seguros com suporte profissional qualificado.

Faça o seu comentário

O seu e-mail não será publicado. *Campos de preenchimento obrigatório.

14 − 2 =