Na segunda etapa da Expedição Tripedal Estrada Real percorremos o Caminho Velho, a rota mais icônica e tradicional da Estrada Real. Foram 9 dias pedalando por trilhas indígenas e estradas históricas seguindo a rota do ouro dos Bandeirantes que partia da antiga capital mineira, Vila Rica (hoje denominada Ouro Preto), até o porto de Paraty.



Fotos e vídeo: Miqueias Gois

 

1º Dia



O primeiro dia da Exp. Tripedal no Caminho Velho da Estrada Real era pra ser tranquilo, uma espécie de prólogo pra equipe se ambientar após a longa viagem de carro até Ouro Preto. Era pra ser tranquilo, era… Porque foi perrengue do início ao fim.



Logo no início a trilha saindo de Ouro Preto estava com mato fechado e muito escorregadia por causa do período de chuvas, com árvores caídas, deslizamentos de terra e pedras fecharam parte da trilha, o jeito foi cortar o mato no peito e atravessar. Depois teve muita lama na estrada e pra piorar no final da tarde, quando começou a escurecer, teve um trecho da Estrada Real no meio de uma mata que alguém resolveu passar um trator pra plantar um milharal* e cercar com arame farpado.

#DiadeAventura é assim: perrengue pra achar o caminho, pular cerca, cortar mato no escuro, enfiar o pé na lama, atravessar riacho e correr de rottweiler. Daí foi chegar em Glaura a noite, tomar água do chafariz e seguir com as lanternas de pilha de relógio no final da carga até Sto Antônio do Leite, onde fomos muito bem recebidos no Pouso das Bikes. 


(*) quem assistiu ao vídeo do @bikecast no primeiro dia da estrada real, viu quando eles se perderam na terra arada, aquilo ali agora virou uma plantação, os pés de milho já estão grandes e a mata fechou pra entrar e sair dali, o caminho ficou escondido naquela região, deve-se tornar cuidado pra não se perder e depois pra sair de lá e chegar em Glaura, tenha cuidado com os cães na saída da trilha.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

2º Dia

O segundo dia da Exp. Tripedal começou com uma tentativa de recuperação dos equipamentos perdidos na noite anterior, o principal deles, meu óculos #Oakley que tem valor sentimental e pago recompensa pra quem o encontrar e devolver-lo são e salvo.

Como o local não é acessível por carro, estudei as imagens de satélite para ver o ponto mais próximo pra ir correndo pelo mato ligando trilhas até chegar no portal na caverna do dragão, ou melhor, no milharal da perdição.

Pra ajudar na missão, contei com o responsável pela nossa logística Marcos Gois, que por sorte é corredor de provas de longa distância, dai ele topou na hora ir comigo. No caminho, também aproveitamos para carimbar os passaportes nas localidades onde não conseguimos na noite anterior por causa do horário*, comentarei sobre isso abaixo e deixarei umas dicas também.

A missão obviamente deu ruim, só encontramos os rastros por onde passamos com as bikes, mas nem sinal de equipamento algum. Tive vontade de descer correndo a trilha na mata fechada, mas isto atrasaria ainda mais o pedal e perderíamos um dia inteiro, dai desisti e retornamos para continuar a jornada rumo à São Brás do Suaçuí.

Esse foi um dia tranquilo de pedal, com clima favorável a maior parte do tempo, apesar de escorregadias as trilhas foram fluídas e o percurso foi predominantemente em estradas de terra passando por antigas edificações em estilo colonial. No final da tarde foi que o tempo fechou e uma tempestade se aproximava a cada km, por sorte a chuva só nos alcançou quando chegamos na marquise do primeiro hotel de São Brás do Suaçuí, sério, foi parar pra perguntar se eles tinham vagas e o valor da hospedagem que a chuva chegou com tudo.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

3º Dia

No terceiro dia da #ExpTripedal no Caminho Velho da Estrada Real, a empolgação inicial já havia passado e o pessoal não queria mais explorar todas as trilhas fechadas e nem caçar baús de tesouro. Foram poucos episódios de “aventurança”, e quando nos deparamos em locais onde o percurso havia sido interrompido, foi tranquilo contornar por caminhos de roça. E no momento que a equipe estava ficando sem energia e a tensão aumentado com a eminência de mais uma tempestade, passamos por Casa Grande, onde começou o primeiro momento Açaí pra recuperar as forças do time. Somando que o percurso foi praticamente todo em estradão, resultou em um dia que conseguimos seguir o plano e chegar com luz do dia em Lagoa Dourada, na simpática Pousada das Vertentes.

Sobre a Pousada das Vertentes: é uma casarão histórica do século XIX, com uma decoração que pode ser considerada a mistura de um museu com uma galeria de arte. A recepção tipicamente mineira e amável da Dona Haydee, proprietária da pousada, é um diferencial à parte.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

4º 
Dia

Durante o briefing para a etapa do quarto dia, eu sugeri que meta deveria ser de aproximadamente 85 km, para evitar maiores desgastes físicos e mecânicos, para adaptações à condições climáticas e outros imprevistos. Mas o pessoal estava empolgado, queriam ir mais longe, vislumbravam ir até Caquende p/ dormir nas margens da Represa Camargos.

Então partimos de Lagoa Dourada por um trecho bem tranquilo de estradão até a bucólica cidade de Bichinho, um lugarzinho lindo habitado por artesões. De lá até Tiradentes o caminho na chuva foi um sobe e desce na estrada pavimentada seguindo para São João Del-Rei.

Em São João Del-Rei, rolou aquela perdida básica pra seguir o percurso original da Estrada Real embaixo de chuva, e na saída da cidade, pra levantar a moral do grupo teve o açaí da recuperação.

Daí em diante começou o perrengue, logo a após a trilha na saída da cidade o riacho transbordou e virou um brejo que dificultou a travessia, e dai em diante teve muito atoleiro, lama argilosa e uma tempestade começou nos cercar e foi a conta de chegar em São Sebastião da Vitória e pernoitar por lá mesmo, enquanto o céu desabava.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso

5º 
Dia

Depois do banho (de lama) de água fria, no dia anterior, a valentia dos dissidentes escorreu pela enxurrada. Assim o 5º dia começou em um ritmo constante e controlado rumo à balsa para a travessia entre Caquende e a Capela do Saco. 

Havia a apreensão de encarar o trecho até Carrancas, descrito na carta de rota como o de maior altimetria continua da Estada Real, e queríamos chegar antes do anoitecer e se possível, antes da chuva.

E assim, chegamos em Caquende praticamente ao mesmo que a balsa, sem contratempos, atravessados e seguimos rumo a incrível elevação de Carrancas, que nem foi a pior subida da Estrada Real, tem piores, bem piores.

 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

6º 
Dia

O sexto dia foi pra apertar o passo, pois precisávamos chegar aos pés da Mantiqueira e nos aproximar da divisa dos estados de MG e SP, e assim garantir o nosso planejamento para completar a expedição dentro do prazo.

Logo no início do percurso estava o maior trecho do Caminho Velho sem nenhuma cidade ou povoado para apoio pelas serras de Traituba, região do pico de Minduri e a região do Alto do Pacaratu, parecia que as forças do time havia terminado no final da “última” subida rumo à Cruzilia. Onde, foi o momento do açaí da recuperação e de motivar o time pra completar o percurso planejado para o dia, sempre correndo da forte chuva no fim da tarde.

Dai foi colocar aquele ritmo (semi)progressivo, aproveitando o terreno e as partes mais fluídas até chegarmos em Caxambu.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

7º Dia


A meta pra esse dia era simples, deveríamos nos aproximar da divisa dos estados de MG e SP e chegar nos pés da Serra da Mantiqueira, ficando em uma posição estratégica para atravessá-la no dia seguinte.

A saída de Caxambu na região do circuito das águas já começa a revelar a altimetria que estava por vir nos episódios finais. Por isto, procuramos manter um ritmo moderado ao longo do dia. Mesmo assim, as subidas já começavam a castigar juntamente com os períodos de chuva.

O perrengue foi em um trecho que precisávamos atravessar um rio que subiu muito e a correnteza estava forte demais, não havia trechos acessíveis por perto até que conseguimos encontrar uma antiga ponte e de lá subimos uma serra bem íngrime, onde avistamos uma parte da Mantiqueira abaixo das nuvens e mesmo assim perceber a sua imponência.

Nesse dia não teve o açaí da recuperação e foi difícil motivar o time pra completar o percurso planejado, não se foi por isso que a cada povoado era uma errada de percurso até chegar na pousada.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

8º Dia

Sem querer desmerecer a empolgarão de terminar um pedal que começa no meio do continente em MG e chega no litoral carioca, mas pra mim o dia mais esperado e simbólico é o da travessia da Serra da Mantiqueira.

Pra quem não conhece a geografia e história da Serra da Mantiqueira, foi ela (juntamente com o Espinhaço) que durante séculos protegeu o território de povos invasores devido seu relevo agressivo e condições naturais, ainda hoje, são essas condições que protegem o pouco que restou da Mata Atlântica em suas encostas, além de sua importância na formação de bacias hidrográficas. Na região ainda são encontradas ossadas de bandeirantes que tentaram explorar outras rotas, também é onde se localiza o túnel onde ocorreu a sangrenta batalha entre mineiros e paulistas em 1932.

Foi nesse clima que saí para o 8º dia de pedal, respeitando e contemplando a impotente montanha que mesmo encoberta pelas nuvens de longe já se avistava. Fui na amizade pedalando com a turma da van, conversando e fazendo planos para o futuro, até que no pé da serra minha parceira @juliaheide atacou o grupo com uma ferocidade que eu sempre quis ver nas provas, então me despedi do pessoal e segui com ela morro acima. Olhei pra trás e vi o @miqueiasgois, que treinou esse movimento com a gente na #tapajos, vindo com uma cara de alegria e choro.

Do alto da Mantiqueira entramos no estado de SP direto em 15km de downhill que parecia uma daquelas provas da #RedBull, no final da descida começa um longo trecho de planície e alagados até a chegada em Guaratinguetá, onde completamos o penúltimo dia e formos muito bem recebidos.
 

 


Foto: @miqueiasgois / Vídeo: @darleycardoso
 

9º Dia

Não sei posso dizer que o melhor ficou para o final, uma vez que já declarei meu respeito e admiração pela Serra da Mantiqueira, e acredito que cada um que percorre a Estrada Real tem alguma etapa que seja mais marcante. Mas certamente o último dia é sempre memorável e trás a possibilidade de conquista do desafio.

Com essa empolgação saímos de Guaratinguetá/SP, nos despedindo da Serra da Mantiqueira que ficava pra trás, rumo para a Serra do Mar e avistando as Serras de Cunha no horizonte à nossa frente.

Assim foi uma sequência de subidas com alguns percalços mecânicos e geográficos/climáticos, a região de Cunha até a Serra da Bocaína na divisa de SP/RJ é incrível. 

Depois que termina o trecho de terra, a estrada de asfalto na serra fica bem perigosa, sem acostamento com tráfego intenso de veículos em alta velocidade. E a partir da entrada do Parque Nacional, onde localiza a divisa entre SP e RJ, começa um longo de descida bem sinuosa com uns 20 km de extensão. No nosso caso, pra piorar a chuva causou uma densa neblina que dificultou muito a visibilidade e ficou complicado encaixar entre os carros. Em alguns momentos haviam pontos de deslizamento ou acidentes, que faziam o trânsito parar e nos dava alguma vantagem para continuar a descida com um pouco mais de segurança.

E quanto mais vc desce melhor vai ficando o percurso até entrar no perímetro urbano de Paraty, onde tem uma longa ciclovia até próximo ao marco final do Caminho Velho da Estrada Real, onde também terminamos essa expedição e começamos a pensar no próximo caminho.

 

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