Seu coração não consegue ver qual tênis você está usando

Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Canadian Journal of Cardiology analisou 62 estudos envolvendo mais de um milhão de participantes e identificou uma limitação recorrente na forma como a cardiologia esportiva vem estudando os efeitos do treinamento de endurance sobre o coração. E os pesquisadores observaram que a carga de treinamento raramente é medida de forma completa e objetiva.

A constatação chama atenção porque, ao mesmo tempo em que os métodos para avaliar estrutura, função e adaptações cardíacas se tornaram cada vez mais sofisticados, a descrição do treinamento realizado pelos atletas foi frequentemente baseada em questionários, entrevistas e estimativas retrospectivas. Em muitos casos, os pesquisadores dependeram da memória dos participantes para reconstruir meses, anos ou até décadas de prática esportiva.

O coração responde à carga, não à modalidade. (Imagem: Tripedal / OpenAI)

O próprio título do estudo resume bem a ideia central: “Seu coração não consegue ver qual tênis você está usando.” O mesmo vale para a modalidade esportiva uma vez que o coração não responde ao rótulo do esporte, ele responde é ao estresse hemodinâmico imposto pelo treinamento. Ou seja, o coração não sabe se você corre, pedala, nada ou faz triathlon. O que ele reconhece é a carga fisiológica produzida pelo esforço realizado repetidamente ao longo do tempo.

Essa observação é especialmente relevante para os esportes de endurance. Durante décadas, foi comum descrever atletas como corredores, ciclistas ou triatletas e utilizar indicadores como horas semanais de treino, quilometragem ou anos de prática para representar sua exposição ao exercício. Essas informações ajudam a contextualizar o atleta, mas não necessariamente descrevem a carga que efetivamente produziu as adaptações observadas.

Do ponto de vista fisiológico, o organismo responde à combinação entre frequência, intensidade, duração e tipo de exercício. Dois atletas podem registrar exatamente o mesmo volume semanal de treinamento e, ainda assim, gerar estímulos completamente diferentes para o sistema cardiovascular. A distribuição das zonas de intensidade, a concentração de sessões mais exigentes, os períodos de recuperação e o histórico acumulado de treinamento modificam significativamente a carga recebida pelo organismo.

Para quem corre, pedala ou é triatleta, essa diferença faz parte da rotina. Um ciclista que acumula 12 horas semanais predominantemente em baixa intensidade está submetido a um estímulo diferente daquele que realiza o mesmo volume com grande quantidade de trabalho próximo ao limiar fisiológico. Da mesma forma, dois triatletas podem apresentar quilometragens semelhantes, mas respostas fisiológicas distintas em função da intensidade, da frequência das sessões e da forma como essas cargas estão distribuídas ao longo do ciclo de treinamento.

Os autores argumentam que parte das dúvidas ainda existentes sobre a relação entre treinamento de endurance e adaptações cardiovasculares decorre justamente dessa dificuldade em quantificar a carga de forma precisa. Hoje já sabemos que o treinamento promove adaptações estruturais e funcionais importantes no coração do atleta. Também existem evidências de associação entre décadas de treinamento intenso e fenômenos como calcificação coronariana, fibrose miocárdica e determinadas arritmias em grupos específicos de atletas. O que ainda não compreendemos completamente é qual combinação de volume, intensidade e exposição acumulada está associada a esses diferentes desfechos.

Nesse contexto, a popularização de monitores cardíacos, GPS, medidores de potência e plataformas de treinamento representa um avanço importante. Essas ferramentas permitem registrar objetivamente a carga realizada e oferecem uma descrição muito mais precisa do treinamento do que aquela obtida por meio de questionários retrospectivos. Pela primeira vez, tornou-se possível acompanhar quanto um atleta treinou, mas também como treinou ao longo de semanas, meses e anos.

Para treinadores, atletas e profissionais envolvidos com esportes de endurance, a principal mensagem do estudo é relativamente simples: volume isoladamente não descreve a carga de treinamento. Quilometragem, horas semanais e número de sessões são informações relevantes, mas insuficientes quando analisadas sozinhas. Compreender o treinamento exige observar a interação entre frequência, intensidade, duração e tipo de exercício, além da forma como esses componentes se acumulam ao longo do tempo.

À medida que a cardiologia esportiva busca compreender melhor os efeitos do treinamento sobre o sistema cardiovascular, medir adequadamente a carga de treinamento passa a ser tão importante quanto medir as adaptações que ela produz. Afinal, para entender o coração de um atleta, é preciso entender o treinamento que construiu esse coração.

Referência:

Dausin C. et al. Your Heart Can’t See What Sneakers You Are Wearing: Exercise Training Load in Endurance Athletes Is Inadequately Quantified in Sports Cardiology. Canadian Journal of Cardiology, v. 41, n. 3, p. 354-363, 2025.

Crédito: Artigo indicado por Rogerio Scheibe (CBTri)

Como citar este post (ABNT):
CARDOSO, Darley. Seu coração não consegue ver qual tênis você está usando. Artigos, Tripedal.net, 14 de julho de 2026. Disponível em: https://tripedal.net/seu-coracao-nao-consegue-ver-qual-tenis-voce-esta-usando/. Acesso em: 14 de julho de 2026.

Darley Cardoso é professor e treinador certificado pela CBTri e Training Peaks, mestre e doutorando na linha de pesquisa em Arte e Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB). Especialista em metodologias ativas, pesquisa corporeidade humana, exergames, interfaces computacionais, processos criativos com IA, performance e treinamento de endurance. Alia produção acadêmica e experiência prática no treinamento de atletas, participando e conduzindo jornadas rumo a desafios multiesportivos da World Triathlon, Epic Series Global MTB, Ironman, XTerra, Brasil Ride, entre outros. Saiba mais sobre o autor em: darley.pro.br

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